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A teimosia a seu favor

Por Alan Santos

Nota: este texto contém spoilers.

Os comentários provocados por um vídeo ou texto disponível na internet podem ser tão instigantes quanto a própria publicação que os gerou. Aqui mesmo, no VAGAS Profissões, uma matéria que alertava sobre os perigos da pulverização do currículo não foi recebida de forma passiva por alguns leitores. A dica era simples: é fácil “queimar o filme” quando se insiste numa mesma vaga um número infindável de vezes ou se marca presença na caixa de e-mails de uma mesma empresa toda vez que qualquer nova oportunidade é aberta.

Um dos comentários enviados sugeria a possibilidade desse comportamento “teimoso” ser interpretado pelo RH como forte indício de interesse. Sendo agora um pouco mais pessoal, particularmente acredito que a insistência pode sim parecer positiva, mas somente se na insistência houver estratégia. Pode até ser verdade que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, mas vai ser bem mais fácil se um único ponto da pedra for atingido pela água. Molhá-la por inteiro pode fazer o processo demorar muito mais.

Obstinação, insistência e inconformismo. Sentimentos muitas vezes experimentados por quem busca um emprego me lembraram
um personagem de ficção interpretado pelo ator Matt Damon em Os Agentes do Destino, mesmo que a busca não seja por emprego.

 

 

Damon é David Norris, um jovem candidato ao senado que percebe seu modo autêntico de ser como uma desvantagem, mesmo que em algumas ocasiões isso lhe renda bons frutos. Com alguns escândalos estampados nos jornais, ele ensaia o discurso em que reconhece a vitória de seu oponente nas urnas. É interrompido pela bailarina Elise (Emily Blunt), bela, engraçada e dona de um sorriso bastante convincente.

O impacto do encontro muda completamente o teor do discurso de Norris e o reflexos são sentidos imediatamente em sua carreira. Mesmo assim, a sensação é de alívio e gratidão pela desconhecida que chacoalhou seu mundo.

Algum tempo depois, um improvável segundo encontro do casal acontece. Seria obra do destino? Norris se certifica de que não perderá o contato com ela novamente e segue para o trabalho. Lá, percebe a estranha presença de um grupo de homens vestindo sobretudo e chapéus. São os tais “agentes do destino” que mais se assemelham a gângsteres dos anos 1930, bastante eficientes em aterrorizar David, caso ele conte o que viu.

O protagonista descobre que o rumo que sua vida vai tomando é parte de um plano traçado pelo “Presidente”, talvez um nome diferente para Deus. Nesse plano não existe chance para que ele seja feliz com Elise. Eles nem deveriam ter se encontrado novamente. O rapaz se revolta e chega a perguntar o que foi feito do conceito de livre arbítrio. Seguem-se sabotagens dos agentes a táxis, ao local de ensaio de Elise e até o ex- noivo dela resolve aparecer. Norris não se deixa abater. A cada plano frustrado, outra estratégia nasce, não importando quem ou quantos digam que ele não vai conseguir. O caminho não é uma linha reta; o que interessa é não abrir mão da mulher que ele acredita ser essencial à sua felicidade.

Ser teimoso é indispensável para se chegar ao ponto desejado. Quando uma verdade grita dentro de você, mais alto do que tudo, talvez seja mesmo a hora de se rebelar. Com planejamento para driblar as armadilhas, bom senso para distinguir possibilidade de devaneio e “peito” suficiente para encarar quem quer te segurar, o sucesso vem. Não há predestinação que resista, no amor ou na carreira.