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Seu melhor colega de trabalho: você!

Filme retrata a solidão de um astronauta dentro de uma nave espacial
por Alan Barros
 
*O texto a seguir contém spoilers
 
Talvez você esteja imaginando coisas, Sam. A cabeleira não recebe visitas de um pente há um bom tempo. Barbado, desalinhado e com as expressões faciais tomadas pelo tédio, você definitivamente não se parece com o mito do astronauta típico do cinema. Ao assinar o contrato três anos antes, você com certeza imaginava uma vida mais fácil e glamourosa. Mas tente ficar calmo. Há uma grande chance de você se dar conta de que tudo não passa de alucinações. Muito trabalho para pouca equipe dá nisso. Você trabalha sozinho, lembra?
 
Quem assiste à ficção científica Lunar, de 2009, vai concordar que o parágrafo anterior poderia muito bem ter saído dos auto falantes de Gerty (voz de Kevin Spacey), a máquina que acompanha o astronauta e acumula as funções de supervisor, babá e conselheiro, sempre expressando suas emoções por meio de impagáveis emoticons. A missão é importante. Gerty guia as ações de coleta de gás na Lua para abastececimento de energia na Terra, mas quem “põe a mão na massa” de verdade é Sam Bell (Sam Rockell).
 
Longe da família e de qualquer companhia humana por um período tão prolongado, não é difícil imaginar, pelo menos por alguns momentos, a cabeça desse homem povoada por dúvidas quanto à suas próprias escolhas: “O que eu estou fazendo aqui?”,”Eu só quero voltar para casa.” Sem a possibilidade de comunicação em tempo real com a Terra, ele é naturalmente levado a uma convivência mais intensa consigo mesmo. A aparência física é reflexo do choque contínuo entre expectativa e realidade, que torna mais nítidas fraquezas e forças do astronauta. 
 
Mais ou menos sob controle
De crise em crise, o personagem segue firme em seus propósitos e  mantém tudo “mais ou menos sob controle” até que um acidente acontece em um dos veículos de escavação. Faltando duas semanas para a finalização da missão e para a tão desejada volta para casa, a equipe de um homem só precisa parar e repousar até a cura dos ferimentos. No entanto, a descoberta de um vazamento externo à nave obriga Sam a interromper a recuperação. Quando retorna, não está sozinho. Carrega outro ferido: ele mesmo!
 
Todas as possibilidades são válidas, desde delírios decorrentes dos anos de isolamento até um irmão gêmeo desconhecido. O desafio maior, porém, é a administração dos conflitos consigo mesmo. Se isso já não era fácil quando vontades divergentes habitavam o mesmo corpo, o que fazer quando elas são externas e podem roubar suas roupas ou destruir o trabalho que levou 900 horas para ficar pronto? A vantagem é que os dois  “Sams” sabem muito bem com quem estão lidando, ou pelo menos deveriam.  
 
Autoconhecimento é a chave para o sucesso de qualquer pessoa. Nas entrelinhas, Lunar nos dá dicas preciosas quanto às fronteiras da individualidade e ao poder que temos quando utilizamos todas nossas diferentes faces em favor próprio. Ás vezes, um problema em uma equipe de trabalho é na verdade uma questão de desajuste dos filtros individuais. A humildade de rever posições e evitar projetar nos outros as próprias inseguranças pode ser um bom caminho para perspectivas muito melhores. Já aquele lado teimoso ou a dificuldade de controlar o riso solto, são exemplos de características pessoais que não precisam ser encaradas como negativas. Se usadas de forma estratégica, podem ser bastante úteis em momentos específicos. 
 
Quem se conhece bem tem maior segurança e realiza movimentos mais precisos, fazendo de si mesmo um grande aliado. Em uma das cenas, ao se orgulhar da filha, Sam estende a mão ao outro Sam e diz: “Fizemos um bom trabalho”.