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O Corte: Um jeito radical para vencer a concorrência

por João Carlos Sampaio*

Quantas vezes diante de um concurso para um cargo público ou mesmo na disputa direta por uma vaga numa empresa privada o candidato não deseja que os concorrentes desapareçam? A comédia O Corte, do cineasta grego Constantin Costa-Gavras, traz um personagem que vai além da vontade, ele simplesmente decide matar seus oponentes.

Dizendo isto assim, sem grandes explicações, pode ser que o leitor entenda que se trata de um filme violento e mórbido. Não é verdade – O Corte utiliza uma abordagem fantasiosa, caprichando no tom irônico. No fundo, é uma reação à lógica severa do mercado de trabalho, que vive desafiando o trabalhador a se reinventar.

O personagem central se chama Bruno Davert, um executivo que já chegou à chamada meia-idade. Ele é interpretado pelo ator José Garcia, habilidoso o suficiente para extrair tudo que há de trágico e cômico nesta situação.

Bruno dedicou quinze anos de sua vida a uma fábrica de produção de papel, no norte da França, e agora tem de se deparar com o dilema do desemprego. O fato de ser um profissional experiente e qualificado tem efeito contrário para o personagem. Seu patamar salarial é alto, ao tempo em que ele é considerado, por causa da idade, uma mão-de-obra ultrapassada.

Como tantas vezes acontece nos dias atuais, a tal empresa de papel adotou uma gestão administrativa que pratica redução dos gastos e otimização dos setor de recursos humanos. Na prática, equivale dizer que a demissão de pessoal se efetiva como uma opção recorrente.

A partir daí o diretor articula sua fábula contra as grandes corporações e a frieza de suas escolhas, muitas vezes tratando o funcionário como uma peça de descarte, a ser substituída como qualquer outra engrenagem de um sistema implacável.

Matando a concorrência
Demitido, Bruno somente começa a se recuperar de sua tragédia pessoal dois anos após a exclusão dos quadros da empresa. De olho numa segunda chance, ele não hesita em iniciar uma série de assassinatos para dar fim aos seus potenciais concorrentes. Temas como os efeitos da “globalização” e a selvageria do capitalismo emergem desta curiosa trama.

O humor negro e a narrativa, que mistura aventura policial e suspense, concedem a este filme um olhar indicativo das razões que geram o cidadão inconformado. Assim se abre espaço na trama para uma série de crimes, aparentemente sem ligação direta, mas que acabam por revelar a louca ideia do protagonista.

O filme se inspira no livro homônimo de Donald E. Westlake, que tem uma postura política muito clara de denunciar uma certa perversidade do mercado de trabalho. Com graça, o espectador é estimulado a torcer pelo protagonista homicida.

Na exagerada (e divertida) concepção do filme, a conjuntura econômica é a grande vilã da história. O Corte faz rir e pensar sobre como estamos vulneráveis às oscilações mercadológicas e o quanto é necessário estar preparado para buscar novas oportunidades.

SERVIÇO
O Corte (Le Couperet). França, Bélgica, 2005. De Constantin Costa-Gavras.

*João Carlos Sampaio é jornalista e crítico de cinema