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Namorando (e casando!) o colega ao lado

Neste Dia dos Namorados, uma história de amor entre colegas

por Flavia Pegorin

No meio jornalístico costumamos privilegiar a notícia e a objetividade acima de toda e qualquer coisa. Por isso é muito difícil (ou deveria ser) para um repórter ou redator falar de si. É estranho virar notícia. E foi estranho, em plena reunião de pauta desse glorioso portal, ao falarmos de matérias tendo o Dia dos Namorados como tema, levantar minha mão na altura dos ombros e admitir: “bom… meu marido era meu colega de trabalho”. Pediram que eu contasse mais sobre isso (porque jornalista bem gosta de ser sério e objetivo, mas também aprecia bastante uma historinha de amor. São umas tias futriqueiras, ô se são).

Então, falemos sobre isso nessa esquisita “primeira pessoa”, vai. Afinal, é a verdade: às vezes, mesmo ante as decisões pessoais de ficar longe de problemas, mesmo frente às regras do bom senso e mesmo as regras da empresa, acontece de dois funcionários se apaixonarem. E aí, fica como?

Posso dizer que fica meio complicado. Tem jeito, mas é complicado. O começo é difícil, porque leva-se um tempo para admitir aquilo. Afinal, vamos conseguir passar oito horas corridas olhando na cara do outro sem fazer piadinhas, dar piscadelas e de fato focar no que importa (o trabalho é o que importa, só para ficar claro)? Eu posso dizer que, além de tudo isso, tinha a questão contratual. Fui checar o que a empresa achava disso. Descobri que não havia grande impedimento – muito jornalista namora jornalista… vai ver é para facilitar, já que só outro abnegado vai entender as longas horas fechando páginas noite adentro e as viagens em pleno aniversário da sogra.

flavia pegorin

Não existiam grandes obstáculos quanto às regras, desde que o relacionamento não acontecesse entre pessoas com proximidade hierárquica (um chefe com um de seus subordinados, por exemplo). Na maioria das empresas, aliás, é assim mesmo. E faz sentido: porque, mesmo com o amor rolando solto, um dia o chefe precisará tomar uma decisão que influenciará a equipe, e aí causaria um bafafá emocional na área, tudo o que um ambiente profissional não quer. Nem nós.

Bem, eu e ele éramos meros repórteres. Nada de “eu-mando-você-obedece” para nós, então. Mas ainda tinha o lance físico – não, não isso que você está aí pensando, que mente mais sapeca! O lance físico é que nós, literalmente, estávamos lado a lado. Mesa com mesa. Cubículo com cubículo. Era, então, um processo delicado lidar com nossos chefes (que bem poderiam, em qualquer atraso de 10 minutos na entrega da matéria, dizer “aí, tá vendo… o namoro atrapalha!”); ou lidar com os colegas – porque, em um escritório, todos concentram nas metas e resultados… até que um casal começa a namorar; aí, todo mundo concentra é na fofoca e na patrulha mesmo. É como um Big Brother, no qual todo mundo só está esperando uma desculpa para votar em você, alegando que é tudo um jogo, e te fazer “deixar a casa”.

Nunca misturar as coisas
E pode parecer engraçado, mas é algo importante de considerar. É preciso ser calmo e focado e Flavia Pegorin repórtertrabalhar bem até com aquela pessoa que se mete entre o casal. É preciso lembrar de ser sempre mais eficiente que todos os demais funcionários também, para ninguém “ter o que falar”. É preciso nunca misturar as coisas, colocando o trabalho na frente como se faria em outra situação. Enfim, é preciso ser muito competente para manter um emprego e um namoradinho ao mesmo tempo. Para nós, deu certo.

Eu e ele tivemos que nos esforçar bastante, porém. Em dias comuns, íamos embora juntos, para aproveitar a carona, mas muitas vezes foi preciso um ir e outro ficar – por horas e horas a mais, madrugada afora. E, enquanto muitos casais estavam em casa curtindo, nós estávamos separados, cada um com seus quilos de matéria a entregar. Tinha também as viagens frugais e profissionais. Nas férias, seriam dois em ausência, então sempre tivemos que negociar poucos dias. E também teve, logo no início do namoro, um convite para ele testar alguns carros na Europa (falei que trabalhávamos em uma revista de automóveis?). Bem, ele ficou fora do Brasil por mais de 30 dias. Já devia saber que, se a coisa não esfriou ali, é porque um dia teríamos que planejar nossas Bodas de Ouro…

14 anos e duas filhas depois
Mas sobrevivemos. Tempos depois ele foi para outro emprego, eu também. E, um ano mais tarde, nos encontramos novamente em uma mesma revista! E, de novo, correu tudo muito bem.  Já não trabalhamos dividindo a mesa, o telefone e os arquivos (além do cafezinho) há 14 anos – mas, tendo a mesma profissão e o mesmo círculo de atuação, vira e mexe precisamos lidar com a ética ao falar de um colega, de um trabalho, de um cliente. Nunca deu qualquer problema porque sabemos separar carreira e vida pessoal muito bem. E sabemos juntá-las também quando permitido, claro. Nossas duas filhas, enfim, estão aí para provar.