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Lições de um professor que mora no Twitter

Por Paulo Verano

Em um de seus tweets, José Luiz Goldfarb afirmou que vivemos já há algum tempo numa situação insólita, que desafia a noção de tempo-espaço:

Se a frase era de sua autoria ou não, se foi apenas um esforço seu para fazê-la chegar à rede mundial de computadores, já não faz mais tanta diferença — são tempos novos, colaborativos, em que as palavras ganham sentido ampliado quando compartilhadas. Físico formado pela Universidade de São Paulo em 1978, com mestrado em Filosofia e História da Ciência pela McGill University (1980), no Canadá, e doutorado em História da Ciência pela USP (1992), José Luiz Goldfarb sabe do que está falando e, em suas múltiplas atuações — que sempre têm no centro a função de educador —, dedica-se a modificar essa idiossincrasia.

Professor do programa de pós-graduação em História da Ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, instituição a que está vinculado desde 1991, Goldfarb nos recebeu para uma conversa no ambiente em que se sente mais confortável: a sala de aula. Uma sala sintonizada com os novos tempos, com computadores Mac, conexão wi-fi e limite permeável entre os alunos e o mestre, pois ali todos estão para aprender.

No intervalo de uma oficina que ministrava sobre Twitter, no Museu da Imagem e do Som, conversou sobre o poder da rede na revisão do papel do professor universitário do século XXI. Na entrevista, concedida no dia 18 de junho, um dia depois das grandes manifestações que tomaram as ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e outras capitais brasileiras — e horas antes de outra, de proporções também impressionantes —, conversou sobre a importância crescente do professor universitário nesse cenário novo, repleto de desafios ao ato de ensinar, em que um celular na mão e uma ideia na cabeça podem mudar o rumo das coisas.

Neste cenário de informação ultraveloz, fica a dúvida: qual é o papel do professor no século XXI?

Para Goldfarb, o educador precisa ser, antes de mais nada, um “provocador”. Deve provocar os alunos a pensar, o que Goldfarb acredita ser o melhor modo de trazê-los para mais perto dos conteúdos que se deseja transmitir. É o professor orientador, que está ali para conduzir o aluno, mas que tem consciência de que é preciso manter canal sempre aberto — para ensinar e também aprender. Não é por outro motivo que acredita que a principal qualidade do professor é saber ouvir os alunos.

E desafios, há? Sempre haverá. Para o professor sempre interessado em novas conexões, um dos maiores desafios atualmente é lidar com a complicada equação que reúne, no ambiente escolar, uma sala de aula do século XIX, um professor do século XX e alunos do século XXI. O aluno dos dias de hoje, absolutamente familiarizado com as chamadas novas tecnologias, é um desafio para o professor. Como trazê-lo para a aula num universo de tantas possibilidades? A familiarização com a tecnologia é uma aliada:

“Se um grupo de alunos se reúne no Facebook e faz uma página para estudar Astronomia, o que o professor tem que fazer é ir lá e fazer junto.”

Goldfarb sabe que o professor que tem múltiplas atividades consegue ultrapassar os desafios atuais da educação com menos dificuldades. Ele próprio é dono de um perfil no Twitter que ultrapassa 24.500 seguidores, o @jlgoldfarb. Lá, mostra-se um militante das novas tecnologias e um homem em busca da constante reinvenção, sobretudo como professor. Esta reinvenção se deve à confluência de informação, aos múltiplos cenários e situações que surgem:

“Aprende-se diariamente dentro da sala de aula. Muitas vezes, você elabora um raciocínio superelaborado e o aluno, num segundo, com uma pergunta, desmonta esse raciocínio e o obriga a repensar nas certezas que tinha.”

As múltiplas atividades e a paixão pelo ensino o fazem driblar outras dificuldades, como a relevância que é dada aos educadores no país. No Canadá, como relembra, o educador tem posição central, porque dele depende o futuro do país, e por causa disso é mais bem recompensado.

Goldfarb é um educador que vê indissociável de seu papel de educador o engajamento na melhoria da leitura e da inclusão digital: tanto que, desde então, vem promovendo Encontros de Twitteiros Culturais (ETC) em várias partes do Brasil, trabalho de formiguinha que o levou, a partir de 2010, a coordenar as ações do MIS no Twitter.

Além disso, à época do Natal, mantém uma parceria com a Droga Raia para a realização de uma campanha de doação de livros que, a cada ano, arrecada mais obras — foram mais de 215 mil em 2012. Quem comprava livros na saudosa Livraria Belas Artes já recebeu indicações suas: de 1985 a 2003 foi o feliz proprietário daquele espaço tão importante para a leitura na cidade de São Paulo. Tal vínculo com os livros o faz ser, também, curador do Prêmio Jabuti, o mais prestigiado do mercado editorial, há mais de 20 anos. E, por isso tudo, bastante requisitado para assessorar programas de formação de bibliotecas e incentivo à leitura por governos estaduais, como os de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A lição dele é a reinvenção. E você, o que tem feito ultimamente para evoluir pessoal e profissionalmente? Escreva nos comentários e continuamos o papo.