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A Festa de Babette: a gastronomia dribla o pecado

por João Carlos Sampaio*

O prazer de usar os seus talentos para proporcionar aos outros um tipo de felicidade que se aproxima da epifania, aquela impressão de que algo perfeito aconteceu, um tipo de experiência capaz de mudar os dias, ou pelo menos, o humor naquele dia. De certa forma esta é a busca da culinarista Babette, chef que andava longe do seu ofício, mas que não esqueceu o quanto de alegria pode proporcionar uma mesa farta, servida com generosidade e um investimento pessoal, que, literalmente, não estabelece limites.

Figura principal de A Festa de Babette, um filme dinamarquês premiado com um Oscar em 1988, a personagem promove um jantar para a comunidade de um vilarejo. Oferece um cardápio com todas as etapas de uma degustação perfeita, tudo preparado com um esmero que faz os sentidos do paladar e do olfato sobrepujarem os outros três.

O filme se inspira no conto da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962) e tem direção do cineasta Gabriel Axel, que já era um veterano quando realizou a fita. Ele faleceu em fevereiro passado, aos 95 anos, reconhecido internacionalmente apenas por este seu solitário sucesso de bilheteria. Parece pouco, mas não é – deixou-nos uma grande história.

Babette, interpretada pela atriz francesa Stéphane Audran, é uma refugiada. Sua vida é mostrada a partir de 1871, quando chega numa pequena vila na Dinamarca. Ela foge da repressão à Comuna de Paris e é acolhida numa noite chuvosa. Emprega-se como faxineira e cozinheira na casa de duas solteironas.

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Suas patroas, assim como todas as pessoas daquele lugarejo, seguem os ditames religiosos de um rígido pastor. Em pouco tempo, a moça francesa se acomoda diante de valores morais rigorosos e um tipo de vida forjado pelas privações. Na vila, todo prazer é tomado como pecado.

A virada na história acontece quatorze anos depois que a personagem chega à Dinamarca, justamente com a notícia de que a misteriosa forasteira ganhou na loteria. Ela pode agora voltar à França e usufruir do dinheiro, fugir de todos os limites da vida dura que aceitou ao ser acolhida na vila.

Banquete
O pedido final da culinarista aos camponeses, beatas e pequenos trabalhadores do lugar é o de que aceitem um jantar francês, que seria servido por ocasião do aniversário de cem anos do pastor. Mesmo sob a ameaça do pecado da gula e de todas as tentações que pudessem ser trazidas da “má afamada” Paris, a tal festa é permitida.

Babette se entrega de corpo e alma ao preparo do banquete, importando caríssimas especiarias, mas ocultando seu secreto desejo de proporcionar para aquelas pessoas algo que jamais tiveram com suas vidas tão recatadas e cheias de proibições. O resultado final, uma aula de gastronomia, é uma destas delícias do cinema, que lambuzam a nossa memória. Com Babette aprendemos a comer com os olhos e, mais que isto, a compartilhar felicidade e prazer, genuína nobreza da arte culinária.

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Serviço
A Festa de Babette (Babettes gæstebud). Dinamarca, 1987. De Gabriel Axel.

*João Carlos Sampaio é jornalista e crítico de cinema.