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Feedback: “o problema não é com você…”

Por Fatima Motta

Lembram desse anúncio da TV?

Cena 1

Época atual, casal anda na rua, carros velozes modernos passando e ele fala para ela:

— O problema não é com você… É comigo!

Cena 2

Início do século 20, o casal anda na rua, carroças passando e ele fala para ela:

— O problema não é com a senhorita… É comigo!

Cena 3

Época medieval, o casal anda pela rua de um vilarejo, cavalos e cavaleiros em armaduras e ele fala para ela:

— O problema não é com milady… É comigo!

Cena 4

E, no início de tudo, em uma área campestre, um casal, folha de parreira cobrindo as partes íntimas e ele fala para ela:

– Habeaya hi lo itach hi iti (que, em hebraico, significa “O problema não é com você… É comigo!”).

Pois então! Desde sempre a mesma história, usada aqui para vender carros e para mostrar que poucas coisas mudam. A gente tem muita dificuldade de falar a verdade na hora em que precisa dar um feedback. E não é só um feedback formal, no trabalho. É no dia a dia também.

Dedicar-se a falar ao outro, com sinceridade, quais são os pontos negativos e dificuldades é tão complicado que criamos eufemismos como “pontos a desenvolver” ou “oportunidades de crescimento”. Ficamos dando voltas, tentando contornar a situação, em vez de irmos direto ao ponto para abordar o que realmente importa: ajudar o outro a buscar melhorias e alcançar os seus objetivos.

Vou contar uma pequeníssima história. Um gestor de uma grande corporação tinha que demitir um executivo, dono de uma posição relevante. Nervoso, constrangido e mal preparado para este fim, decidiu apontar todos os pontos positivos conquistados pelo executivo. Exaltou-o tanto que o executivo, ao deixar a sua sala, saiu muito satisfeito porque achou que estava era sendo promovido:

— Acho que você não teria qualquer dificuldade em assumir uma posição gabaritada em outra empresa!

E ficou por isso mesmo. Ele só se esqueceu de dizer que aquilo era uma situação de demissão.

Por que será? Será que achamos que as pessoas são fracas o suficiente para não suportar a verdade? Ou que são pouco inteligentes para perceber que não estamos falando os reais motivos? Ou ainda, que nós mesmos não sabemos lidar com a difícil missão de encarar os olhos dos nossos subordinados e dizer o que precisa ser dito, baseados em fatos e evidências, de que sua performance não está ok?

Pois é… Dá trabalho, né? Exige tempo, cuidado e dedicação. Por isso nem todo mundo se dispõe a gastar seu tempo para fazer bem feito. Prefere repetir uma frase gasta, fácil e rápida.

O problema, no fundo, não é com o outro… É com você!

Feedback é como um namoro

Feedback honesto exige dedicação, interesse genuíno pelo outro e tempo. Perceba: isso é exatamente como acontece quando estamos namorando com alguém! Sim, é isso mesmo: feedback e sexo têm tudo a ver.

Duvida? Olha só: quando você pergunta se a pessoa namora muito, quero dizer, se ela pratica muito o feedback, ela diz que sim, que faz isso todos os dias e que faz isso muito bem. Nossa! Bacana! Sensacional! Mas isso é o que a pessoa acha! Vai fazer uma pesquisa de opinião para saber! As pessoas têm muita dificuldade em dar feedback! E receber, então?!

Não deveria ser assim.

É como namorar. O momento do feedback é para ser bom para os dois, uma oportunidade de expressar atenção e dedicação, com o tempo necessário para se extrair o melhor da situação que só deve acontecer quando os dois estão a fim. Quando um está com “dor de cabeça” ou má vontade, feedback não rola legal.

Faça acontecer num ambiente privativo, tranquilo, entre quatro paredes. Não faz no meio da rua, num parque, dentro do carro. Vai que chove, vem um ventinho “encanado”, alguém fica olhando… Isso não é bom! Também não envolva mais gente nessa hora, pois pode virar uma confusão: todos vão querer falar ao mesmo tempo, não vão saber se é para ele ou se não é…

E aí é olho no olho! Dedicação e concentração. Não vai se distrair, atender o celular — é o fim! –, reparar que o quadro na parede está torto, que alguém passou na janela. Enfim, seja atencioso.

E, sendo assim, não faça comparação também. Dizendo que fulano ou fulana entregou mais ou foi mais ou menos motivado. Também não é uma coisa boa. É frustrante. Melhor é você comparar a pessoa com ela mesma.

Lembre-se: feedback bom é feedback bom para os dois.

 

Fatima MottaFátima Motta é coach formada pelo Instituto EcoSocial e certificada pela ICF (International Coach Federation) e tem 30 anos na área de Recursos Humanos, treze deles como gestora no Grupo Andrade Gutierrez. Psicóloga de formação, pós-graduada em RH, atualmente atende dezenas de profissionais e trainees como coach. Fátima Motta é colaboradora exclusiva do VAGAS Profissões. Não perca as dicas de carreira que ela tem a passar!