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Carta a um jovem profissional de qualquer idade

Por Paulo Verano

Três coisas que não saem de moda: cartas, juventude e escolhas profissionais.

Você dirá:

“Mas não enviamos mais cartas!”

Será? Acredito exatamente no contrário: não passamos um dia sequer sem ler ou escrever cartas. Podem surgir novas ferramentas, mas o principal não muda: continuamos desejando nos comunicar, trocar ensinamentos, conselhos e confidências, e a prova disto é que estamos aqui.

E o que dizer da juventude? O dicionário Houaiss define a juventude da seguinte forma:

“período da vida do ser humano compreendido entre a infância e o desenvolvimento pleno de seu organismo.”

Oba! Então, se não pararmos de nos desenvolver nunca, sempre estaremos na juventude? Dia desses morreu no Japão o homem mais velho do mundo, com 116 anos. A ciência avança ligeira, conhecemos muito mais sobre o nosso organismo. Quantos anos terá nossa juventude hoje em dia? O quanto poderemos nos reinventar em nossa vida?

Pois é, a juventude nunca sai de moda, e isso é bom para todo mundo.

Chegamos às escolhas profissionais. Todos nós já desejamos ser alguma coisa quando crescêssemos. Artista, motorista de caminhão, cientista, atleta, caixa de supermercado, chef de cozinha, fazer medicina ou virar trapezista de circo. Eu acho que é esse sonho de infância, esse brilho no olho, que irá nos acompanhar por toda a vida.

Pode ser que a gente mude de ideia. Que aos cinco desejemos construir pontes. Aos dez, cuidar de cachorrinhos. Aos 15 nos tornarmos designers de games. Aos vinte e poucos, depois da dúvida entre o Direito e a Engenharia, nos formemos como administradores. Mas isso não impedirá que sigamos nos reinventando aos trinta, quarenta, cinquenta, sessenta, setenta…

O mais importante de tudo será sempre olharmos para dentro de nós e lembrarmos do que é que fazia com que o nosso olho de criança brilhasse. Quando a chama começar a diminuir, olhar internamente de novo. E fazer isso sempre.

Agora um pouco de poesia. Em 1903, o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) recebeu a carta de um aluno da Academia Militar de Wiener Neustadt chamado Franz Kappus (1883-1966). Quando o jovem militar austríaco lhe escreveu, o poeta, que nascera em Praga (hoje capital da República Tcheca), já era famoso.

Kappus desejava se tornar poeta e, no ímpeto de quem tinha vinte anos, enviou suas tentativas poéticas ao mestre. Algumas semanas depois recebeu pelo correio a resposta. E seguiram-se a esta mais nove cartas — a última no Natal de 1908 — que tinham como assunto não só a escrita, mas as escolhas que envolvem a vida adulta. Anos depois, os preciosos conselhos do poeta seriam reunidos em livro por Kappus na pequena joia Cartas a um jovem poeta, prova de que, se não se tornou poeta, captou o ensinamento e soube passá-lo adiante.

Na primeira carta, Rilke foi direto ao ponto: para se tornar, também Kappus, um poeta, deveria antes fazer um longo exame interno que o permitisse descobrir por que escrevia e se podia viver sem escrever.

“Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério. Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida; nessa fonte o senhor encontrará a resposta para a questão de saber se precisa criar. Aceite-a como ela for, sem interpretá-la. Talvez ela revele que o senhor é chamado a ser um artista.”

São conversas assim que, de tempos em tempos, devemos ter conosco mesmo e com quem acreditamos poder nos ajudar quando estamos pensando sobre nossa profissão, seja ela qual for.