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Me dá um pedaço do que você está comendo?

por Marcelo Costa

Comida é coisa séria! Além de alimentar o corpo para que a gente continue funcionando (lembra do velho ditado que dizia que “saco vazio não para em pé”?), o ato de comer também envolve uma série de relações pessoais no trabalho, algumas delas, cômicas, outras tragicômicas, que desenham um painel interessante do viver em sociedade. E muitas vezes não é preciso nada mais do que um bombom para observar isso.

Normalmente podemos perceber a relação de comida e trabalho no almoço, claro, quando saímos em bando discutindo qual restaurante por quilo é melhor, optando por maioria em ir a um restaurante vegetariano (para desespero daquele amigo que acordou sonhando com uma picanha) ou mesmo se dividindo em quem, na mesa, após o fim do almoço, vai encarar um cafezinho.

Porém, divertido mesmo, são aquelas historinhas que, ao menos uma vez na vida, um de nós já passou. Como a de um amigo que bastava fazer o barulhinho de abrir o papel do chocolate para sua vizinha de mesa dizer: “Me dá um pedaço?”. O que o deixava mais transtornado, no entanto, era o dom que essa vizinha  tinha de comer as coisas que trazia sem fazer barulho. “Hoje vou dar o troco”, ele imaginava, mas quando percebia ela já tinha devorado um Sonho de Valsa e ele nem tinha visto.

Há também outra história, que se passa em um determinado escritório, em que o pessoal fazia uma “vaquinha” e sempre deixava biscoitos e café em uma mesa, para todo mundo. Quem ser fartava? Justamente o senhorzinho que nunca colaborava! Certo dia, na ausência de biscoitos e café, e querendo saciar aquela fominha que bate no fim da tarde, nosso intrépido amigo partiu em direção à copa, e foi flagrado por uma das copeiras com um biscoito na boca (da “vaquinha” que elas, da copa, tinham feito). Elas reclamaram, todo mundo aplaudiu (mas no dia seguinte, lá estava ele mantendo a tradição).

Certa vez trabalhei em uma empresa que mantinha duas máquinas com refrigerantes, salgadinhos e doces próximo da copa. Para retirar a comida, cada um de nós ganhava uma cota de vale-refeição que era gasto praticamente todo no dia em que um funcionário enchia a máquina: formava-se aquela fila, gavetas se enchiam e, durante o expediente, rolava até escambo. “Você não troca uma barra de chocolate por uma batatinha?”, ouvi mais de uma vez. Coitados dos plantonistas, que só tinham à disposição os itens menos disputados da “compra semanal” dos funcionários.

Inesquecível mesmo foi o dia em que visitei uma empresa que, além de manter uma área de copa com lanches, doces e refrigerantes para todos os funcionários, também tinha uma geladeira (dessas de boteco) repleta de latinhas de cerveja. Juro que é verdade! O diálogo com os funcionários da empresa, no entanto, foi o mais esclarecedor possível, e me fez pensar nas relações de responsabilidade não só para com a empresa (e todos os funcionários, já que somos apenas uma mola numa engrenagem), mas consigo mesmo.

A conversa foi mais ou menos assim:
– “Vocês tem uma geladeira de cerveja à disposição?” (incrédulo)
– Sim, a gente geralmente bebe uma cervejinha depois das cinco da tarde, nunca antes – respondeu alguém, no que outro completou:
– É, quando todo o trabalho está feito, eu venho aqui, pego uma cervejinha e dou um relaxada.

O mais interessante veio na sequencia:
– Mas sabe que ter cerveja e comida à disposição me fez repensar os meus hábitos, comentou um dos rapazes, seguindo na teoria:
– Num primeiro momento, a gente fica empolgado em ter comida e bebida “grátis”, mas após uns três meses percebi que o costume de beber uma cerveja e comer alguns lanchinhos no final da tarde, estava me engordando, e que eu necessitava criar uma rotina para que essa vantagem que a empresa nos dá não se torne prejudicial ao meu próprio corpo.

Surpreso diante da teorização tão eloquente, observei mais uns três amigos do rapaz concordarem e tecerem outros comentários sobre uma vida saudável, como se eles já tivessem debatido o assunto e alcançado, juntos, a sábia conclusão.

De tudo isso tiro, ao menos, duas máximas: é preciso respeitar as diferenças. As relações humanas são uma coisa meio doida e estamos sempre conhecendo pessoas novas, diferentes e convivendo com elas. Na “firma”, então, a coisa toda alcança um nível poucas vezes imaginado: você já deve ter trabalhado em empresas que traziam um pedaço do Brasil (às vezes até do exterior) em cada departamento, coisas que a gente percebe no jeito da pessoa falar, se vestir, de lidar com as situações do dia-a-dia, e também com a comida.

A outra máxima é a de que somos os maiores responsáveis por nosso próprio bem-estar: precisamos estar atentos ao que comemos. Muitas vezes, na correria do trabalho, nos descuidamos, mas, para o bem da empresa, e de nós mesmos, se alimentar adequadamente é uma regra que precisa ser seguida com seriedade, porém, aproveitando, me dá um pedacinho desse chocolate que você acabou de esconder?