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007 – Operação Skyfall: segure a respiração e conte até dez

Por Alan Santos

Nota do editor: este texto contém spoilers.

Skyfall foi considerado por alguns críticos o melhor filme de Daniel Craig no papel de James Bond. O ator, mais experiente na função, parece agora mais confortável em cena. Talvez seja mesmo verdade aquela história de que o aprimoramento vem com o exercício constante. Contando com a parceria da agente Eve (Naomie Harris), 007 busca recuperar um HD roubado que contém as identidades de agentes da OTAN infiltrados em organizações terroristas.

 

 

É a própria Eve que, a mando de “M” (Judi Dench), efetua o disparo que tinha o intuito de atingir o terrorista, mas acaba derrubando Bond. O agente literalmente cai do céu, como sugere o título do longa. É uma das cenas mais impactantes e belas do filme, cheia de simbolismo, que abre caminho para uma das vinhetas de abertura mais sensacionais da franquia 007. Dessa vez, Adele interpreta majestosamente a canção vencedora do Oscar 2013, enquanto as artérias do agente se confundem com as árvores de um cemitério e enormes gotas de sangue “chovem”, destruindo tudo o que tocam. Lindamente arrepiante.

 

 

A queda não é apenas física. Ao ser abandonado e dado como morto, Bond perde o emprego, a casa e a motivação para continuar seu trabalho. Pode-se até fazer um paralelo, guardadas as devidas proporções, com a demissão e o posterior retorno ao mercado de trabalho, de profissionais de nível sênior. Se por um lado, tem-se em algumas profissões certa dificuldade de recolocação, em outras, a necessidade de mão de obra altamente especializada por parte das empresas é absurda.

Como quem curte a “fossa”, natural após a perda de um emprego, ele decide matar o tédio e segue pelo mundo, bebendo e brincando com escorpiões. Um sério atentado à sede do MI6, no entanto, o faz voltar a Londres. Hora de prender a respiração e contar até dez. A chama reacende. Ele desperta de seu sono e busca o retorno.

A possível preocupação com o bem estar de “M” parece ser outra forte razão para a retomada profissional. A relação entre os dois é bastante peculiar. Apesar da aparente frieza nos diálogos, ambos sabem que só podem contar um com o outro. “M” está sob ameaça e a aposentadoria compulsória bate à sua porta. Apenas Bond seria um agente suficientemente leal para quebrar algumas regras e, assim, contornar os estragos do fracasso da operação Skyfall. Ele, por sua vez, sabe que sem “M” não conseguiria retornar a seu posto. O apoio dela é fundamental nesse momento delicado. O ombro baleado prejudica seus movimentos, sua mira. O condicionamento físico e a capacidade de concentração não têm mais a mesma eficácia. Sem que James saiba, “M” mente ao aprová-lo nos testes para a reintegração à equipe de agentes. Chefes como “M”, sem dúvida, sabem que o risco do fracasso é algo muito menor se comparado ao que se perderia ao dispensar alguém com talentos acima da média.

No retorno, o profissional mais experiente precisa se reinventar. Em momentos como esse é muito importante que a pessoa que busca recolocação possa fazer um balanço daquilo que construiu até o momento, ao mesmo tempo em que percebe o mundo à sua volta. É preciso se adequar aos avanços e perceber como os talentos desenvolvidos ao longo da vida podem ser úteis inseridos em uma nova realidade. Além disso, o “feeling” de um profissional com maior experiência (possivelmente alguém da geração X) pode ser um ingrediente valioso dentro de equipes formadas, por exemplo, por representantes da geração Y. O equilíbrio entre maturidade e inovação pode gerar resultados muito positivos se as pessoas envolvidas souberem unir forças.

Bond, não muito atualizado com a novíssima tecnologia agora em uso, caçoa da aparência de “Q”, o jovem agente “nerd” que lhe entrega seus novos equipamentos.

“Posso causar mais estragos de pijama, com meu laptop, antes do chá da tarde do que você em um ano em campo”, é a resposta.

“Então por que precisa de mim?”, retruca Bond.

“Alguém precisa puxar o gatilho”, devolve “Q”

“Puxar ou não puxar. Essa é uma decisão difícil de se tomar de pijamas”, finaliza o experiente agente de campo.

No filme que comemora 50 anos de James Bond, o MI6 retrata uma realidade muito parecida com a aquela vivida hoje nas grande empresas e que reflete diretamente nas carreiras de seus profissionais. Pela primeira vez, várias gerações compartilham de um mesmo ambiente, buscam os mesmos resultados, mesmo com características muito diferentes entre si. Gareth, o presidente do Comité de Segurança e Inteligência, não poderia representar melhor uma geração de meia idade, mas ainda cheia de rigor. “Q”, a geração Y e sua habilidade tecnológica e a forma peculiar de encontrar soluções. E “M”, não menos competente, uma baby boomer que se prepara para aposentadoria. Todos sob o mesmo teto. Vale a reflexão.