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Seu DNA é o seu currículo?

Por Alan Santos

NOTA DO AUTOR: O texto a seguir pode conter spoilers.

O candidato à vaga é chamado a entrar na sala para entrevista de emprego. Apreensivo, tenta lembrar-se de todos os detalhes que podem colocar tudo a perder — do seu toque na maçaneta da porta até o aperto de mão. Entra e cumprimenta o homem à sua frente. Sabe que nada do que disser fará diferença.

Antes de dizer qualquer coisa, o responsável pela vaga indica um pote para coleta de amostras. Eles se olham e a tensão toma conta do candidato. Ele vira as costas, vai embora e uma sentença marca seus pensamentos:

“Meu currículo são as minhas células. Por que alguém investiria em mim, se existem muitos candidatos com qualificações genéticas superiores?”

Por meio do sequenciamento dos genes, empresas fazem sua seleção. Os medos de quem busca uma colocação não são mais as possíveis respostas atrapalhadas a perguntas estratégicas feitas pelo recrutador ou inconsistências na trajetória profissional. O que deixa as mãos frias e faz o coração gelar são as verdades reveladas quando o genótipo do indivíduo é “entrevistado”:

  • Expectativa de vida de 30,2 anos
  • 89% de probabilidade de desenvolver déficit de atenção
  • 42% de probabilidade de desenvolver depressão maníaca
  • 99% de chances de sofrer de problemas cardíacos

Tudo começou com a possibilidade de criar embriões selecionados, com baixa ou nenhuma propensão a doenças graves, cor da pele, cabelos e olhos da preferência dos pais. Futuros cidadãos válidos, em uma sociedade “sem defeitos”.

Que alternativa resta aos considerados “inválidos”, além de fugir da eugenia? O arriscado e ilegal caminho de assumir a identidade de um “válido” (ser humano perfeito) que, por acidente, tornou-se inválido. Arriscado e cansativo, porque implica em esconder os rastros genéticos, deixados no ambiente e nos objetos do dia a dia, ao mesmo tempo que se “planta” nos mesmos lugares, cabelo, sangue, pele ou suor do verdadeiro dono da identidade.

Tudo bem. Respire aliviado. Ao menos por enquanto. Tudo isso não é real. Somos identificados por meio de nossas digitais em várias situações e fazemos exames admissionais, mas o mundo dominado pelos “válidos” só existe no filme Gattaca (o título é uma referência às bases nitrogenadas do DNA), protagonizado por Ethan Hawke e Uma Thurman.

 

 

Esperamos que, hoje e amanhã, os valores continuem sendo mais importantes do que a carga genética na hora de encontrar um bom trabalho.