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Seu Luizão – há 45 anos fazendo história no Pacaembu

por Guss de Lucca
fotos por Ailton de Oliveira

A receita certa para saber quais são as melhores histórias de qualquer edifício é conversar com seus funcionários – preferencialmente aqueles com mais tempo de serviço. No caso do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, uma das mais conhecidas arenas de futebol do País, a pessoa indicada é Luiz Afonso de Andrade – o Luizão do Pacaembu.

Uma espécie de zelador do estádio, Seu Luizão, paulistano do bairro da Penha, fala com orgulho sobre os 45 anos dedicados a colaborar com o bom funcionamento do local, que ele conheceu ainda pequeno. “Eu devia ter uns oito anos quando meu tio me levou para ver um jogo no Pacaembu. Pra mim era tudo muito estranho, não estava acostumado com um público daquele tamanho – não largava da perna da calça do meu tio nem morto”, conta, rindo.

Mal sabia ele que anos mais tarde voltaria, sim, agora como empregado. “Prestei um concurso e passei como servente. Comecei no dia sete de abril de 1969 para fazer de tudo: limpar, varrer, coletar lixo… Naquele tempo era assim. Hoje o cara faz o serviço dele e some. Eu sempre fui do tipo que vai atrás do chefe pra saber se tem mais coisa pra fazer.”

Essa postura chamou a atenção do então encarregado do estádio, que apostou no futuro do jovem servente. “Ele não sabia ler e escrever e descobriu que eu sabia. Passei a redigir suas anotações. Depois foi ele quem me incentivou a participar de um curso profissionalizante, que a Prefeitura pagava, e a prestar um novo concurso. Em três anos me tornei auxiliar de hidráulica”, relembra.

De servente a diretor interino
Seu Luizão, 65, também teve ajuda para aprender o que não sabia. Um xará, o encanador Luis, espalhava todas as peças na mesa e perguntava os nomes e funções de cada uma até que ele aprendesse. “Ele acreditou em mim e sempre disse que eu podia chegar onde outros não chegaram.” De fato, a trajetória do jovem servente não parou entre os canos e tubulações do Pacaembu. Seu Luizão foi encarregado de turno, assistente de direção e até diretor interino do estádio. Nem a aposentadoria, em 2006, conseguiu afastá-lo do trabalho por muito tempo. “Fiquei um mês em casa e o Secretário de Esportes da época me chamou de volta. E eu voltei.”

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Depois do breve intervalo, a rotina de trabalho não mudou muita coisa, ele diz. Há 40 anos ele acorda às 05h, deixa a mulher no trabalho, que por sorte fica nas proximidades do estádio, entra no Pacaembu por volta das 06h30 e deixa o estádio lá pelas 16h. A não ser, é claro, que seja um dia de jogo. “Aí vou mais tarde, pois tem muita coisa pra fazer, como acompanhar as reuniões com a Tropa de Choque em nome da diretoria, ver se a câmera está em cima da grama, supervisionar os meninos cuidando do gramado durante o intervalo, brigar com o cara que estende uma faixa dentro do campo… É muita responsabilidade”, explica o veterano. Já assistir a partida são outros quinhentos: ele diz que não tem mais tempo e nem paciência para isso.

Além do mais, enquanto a torcida vibra com a bola rolando, a equipe do estádio já se preocupa com o próximo evento. “Nós já estamos com a cabeça no outro jogo. Se você chegar na segunda-feira cedo e dizer que vai ter jogo, pode ter certeza que o Pacaembu estará totalmente limpo e lavado, por causa da equipe que praticamente não dorme”, conta seu Luizão, orgulhoso.

Momento difícil
Questionado sobre qual seria o momento mais difícil de sua carreira, ele logo se recorda da confusão ocorrida em 1995, em que uma briga entre torcedores do Palmeiras e do São Paulo deixou mais de 100 feridos e um morto no estádio. “Eu era assistente da direção e tive que pedir pro segurança prender o diretor no túnel, porque ele queria ir falar com os caras que estavam derrubando o alambrado”, diz.

Mesmo após testemunhar momentos lamentáveis como esse, o brilho nos olhos de seu Luizão ao se referir ao Pacaembu nunca mudou. “Tudo que eu conquistei na vida foi trabalhando no Pacaembu. Há três anos recebi uma comenda do Batalhão de Expedicionários Paulistas por serviços prestados. Me sinto orgulhoso.” O segredo da satisfação profissional, segundo ele, é simples como muitos dos lances que resultam em gols dentro do Pacaembu. “Aqui a gente faz tudo com prazer. Mesmo sendo o pior serviço do mundo, tem que fazer bem feito e com amor”, ensina.

*Até o final da Copa do Mundo, o VAGAS Profissões vai trazer perfis de profissionais e carreiras marcantes no mundo do futebol.

Zelador Estádio Pacaembu