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Uma arca de Noé à disposição da medicina veterinária

por Gustavo de Lucca
Fotos de Rogério Montenegro

Gostar de bichos não faz parte do currículo de nenhum curso de medicina veterinária, porém, é o principal fator que leva milhares de estudantes a buscar a realização profissional nesta área.

Esse é o caso, por exemplo, de Claudia Veronica Calamari, que atua há 17 anos cuidando de animais de pequeno porte em uma clínica de São Paulo. Para ela, a grande diferença entre o médico e o veterinário é a dificuldade em descobrir o que acontece com o paciente. “O médico tem só uma espécie para cuidar, que pode falar e se queixar do que está sentindo. Nós temos uma gama enorme de animais domésticos e silvestres, com diferenças em sua anatomia, e precisamos decifrar o que eles sentem”.

Além disso, Claudia entende que atualmente o veterinário não trata apenas do animal, mas cada vez mais dos donos. “Ele tem que ser altamente psicólogo, pois os proprietários mudaram muito na última década. Hoje o animal é tratado como parte da família, algo que não é ruim, mas às vezes o excesso de zelo acaba fazendo mal ao bicho e dificultando o nosso trabalho”.

Claudia Veronica Calamari_125

A capacidade e disposição em escutar os problemas dos clientes é um dos diferenciais que, de acordo com ela, auxiliam uma clínica a manter-se no mercado. “O proprietário procura esse vínculo. A frase que mais escuto de clientes que me encontram na rua é: ‘Essa aqui é a pediatra do meu cachorro’. O cliente fiel não te troca por preço ou por uma clínica gigante toda equipada. Eles te encaram como médico da família”.

A importância de uma especialização
Assim como o fator humano, as especializações são determinantes para o sucesso de quem está entrando no mercado. Se antes as clínicas contavam com poucos recursos, agora o que não falta são especializações e tratamentos específicos para os bichos de estimação, como oncologia, dermatologia, cirurgia e acupuntura.

Formada em 2012, a veterinária Fabiana Vitale não perdeu tempo e já começou uma especialização em dermatologia voltada para cães e gatos. De acordo com ela, essa não é apenas uma exigência do mercado, mas também dos clientes. “Quando um animal tem um problema do coração, o proprietário não quer mais ser atendido por um clínico geral, mas por um cardiologista”, explica.

Fabiana Vitale

Diplomada há pouco mais de um ano, Fabiana teve o primeiro contato com a prática clínica logo no início do curso de graduação, graças ao estágio que fez dentro do hospital mantido pela universidade. Lá aprendeu como conter um animal, examiná-lo e a melhor maneira de conversar com o proprietário, vivenciando inclusive experiências inusitadas. “Durante um plantão um dono trouxe um cachorro que tinha tomado bebida alcoólica com ele – os dois em estado deplorável. Não sabíamos quem ajudar primeiro: o homem ou o cão”.

Para Fabiana a oferta de trabalho não é o principal desafio de quem está ingressando no mercado de animais de pequeno porte. Com a demanda crescendo, o número de vagas aumentou. Mas o mesmo não pode ser dito da remuneração.

“Trabalho tem. Tive varias propostas, podendo inclusive escolher onde ia trabalhar. O que eu vejo de maior dificuldade é a parte financeira. A remuneração oferecida a um recém-formado não é muito boa. Você precisa complementar com o plantão”, explicou ela, que divide seu tempo com o trabalho como auxiliar do centro cirúrgico de uma clínica em Campinas e plantões de 12 ou 24 horas num hospital veterinário.

Uma Arca de Noé para ser explorada
Se engana quem pensa que o mercado de medicina veterinária se resume a tratar de cães e gatos. Apesar de aquecido, o segmento dos pets divide espaço com o de animais de grande porte, como bois, vacas e cavalos.

É nesse mundo, fora das clínicas, que vive o veterinário de equinos José Jofre Martins Baypux. Apesar de residir em São Paulo, sua rotina – que de acordo com ele não tem nada de rotineira – inclui viagens por cidades do interior do estado, como Bragança Paulista, Atibaia e Itatiba, além de passagens por hípicas ou jóqueis.

“No mercado de equinos a maior dificuldade que encontro são os clientes. Quando são de origem humilde, preciso ensinar como higienizar o local onde vive o cavalo e passar noções básicas, como explicar que seringas e agulhas não podem ser lavadas e reaproveitadas. No caso de animais de esporte, de ponta, o desafio é mantê-los saudáveis em detrimento da quantidade de provas que eles enfrentam. Muitas vezes eles precisam de repouso e alguns proprietários não entendem – e o prejudicado é o cavalo”, afirma.

Agora José já conta com uma nova fatia de mercado, que vem crescendo nos últimos anos: os proprietários de cavalos de final de semana. “O cavalo hoje em dia virou pet. Tem cachorros custando de R$ 5 a R$ 6 mil, com manutenção mensal que pode chegar a R$ 1 mil. Se você pegar um cavalo de passeio, paga uns R$ 2 mil reais. E a manutenção dele gira perto de R$ 500. Ou seja, é um cachorro grande. Isso fez com que muita gente que mora em grandes cidades, como São Paulo, adquira um cavalo para o lazer”.

José Jofre Martins Baypux

Como não sabem nada da criação de equinos, cabe a profissionais como José educar esses novos proprietários a como manter um cavalo saudável. “É um público mais fácil de trabalhar do que os profissionais do hipismo, por exemplo, que exigem uma dedicação quase 24 horas por dia, por se tratar de cavalos extremamente importantes”.

A dica de José para aqueles que querem entrar nesse mercado é começar cedo o estágio, que dentro da medicina veterinária tem obrigatoriedade de apenas três meses. “Meu conselho é começar a estagiar desde o segundo ano da faculdade para não sair totalmente cru. A gente percebe quando recebe um estagiário que já teve alguma vivência na área”.

Seja no campo, na indústria ou dentro das clínicas, paciência, especialização e muito suor são os ingredientes essenciais para garantir aos amantes de animais a satisfação dentro do fascinante universo da medicina veterinária.