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A importância da psicologia nos jogos de futebol

por Guss de Lucca
fotos por Ailton de Oliveira

Assistir a uma competição esportiva consiste em focar sua atenção no esforço físico de um atleta ou grupo de atletas, que no caso do futebol pode ser um drible, um passe, um desarme e até mesmo o tão aguardado momento do gol. E se em campo a importância de um corpo são é fator decisivo, dentro e fora dele a mente do jogador é peça-chave para a definição de um título.

Cientes de que o bem estar mental de um time é tão importante quanto os treinos físicos aos quais seus integrantes são submetidos, os clubes de futebol passaram a contratar psicólogos para, junto com a comissão técnica, tentar garantir um melhor desempenho de seus elencos.

Uma das pioneiras nessa área no Brasil é a psicóloga Suzy Fleury, que tem em seu currículo passagens por times como Palmeiras, Santos, Corinthians, Atlético Paranaense e Atlético Mineiro, além de cuidar por dois anos da Seleção Brasileira, vivenciando torneios como a Copa América, a Copa das Confederações e a Olimpíada.

Tudo aconteceu meio por acaso. Após uma década trabalhando no ramo da psicologia organizacional, focada em equipes empresariais, Suzy cruzou com o elenco do Palmeiras em concentração no mesmo hotel em que estava fazendo uma palestra. O ano era 1993 e o técnico Vanderlei Luxemburgo havia acabado de assumir o time alviverde.

“Entrei em contato com a comissão técnica e depois de me submeter a um trabalho focado no aprendizado do futebol em si, pois não conhecia os aspectos táticos do jogo, passei a acompanhar a equipe e inserir alguns conceitos da psicologia no treinamento”, conta Suzy (no meio da foto abaixo), ressaltando a conquista dos Campeonatos Brasileiro e Paulista pelo Palmeiras no mesmo ano.

A ida para a seleção brasileira aconteceu de forma natural. “É comum que um treinador forme sua comissão técnica com profissionais de sua confiança. Como eu já havia trabalhado com o Luxemburgo antes, ele me chamou em 1998, logo que assumiu a seleção. Juntos ganhamos a Copa América invictos e ficamos em segundo na Copa das Confederações”.

Psicóloga Suzy Fleury Seleção Brasileira

 

A saída do técnico aconteceu dois anos depois, em 2000, após a derrota nos Jogos Olímpicos. “Aprendi lições muito importantes nas Olimpíadas. Um dos problemas que enfrentamos foi a dificuldade em reunir o grupo de jogadores para fazer um trabalho psicológico continuado. Alguns clubes não liberavam os atletas convocados. Era uma tarefa inglória”, reflete.

Apesar do resultado negativo, a psicóloga lembra com carinho dos 28 dias em que acompanhou o time escalado, formado por atletas jovens, na casa dos 20 anos. Um deles, o atacante Edu, havia marcado a data de seu casamento para o período dos jogos – antes de saber que seria convocado.

“Ele não contou pra ninguém. Fiquei sabendo quando voltamos de um passeio na Vila Olímpica para o hotel onde a seleção estava concentrada. Vi o Edu sentado sozinho numa mesa e perguntei o que ele estava fazendo. “Tô casando por procuração”, ele respondeu. “Não tive dúvidas e bati uma foto dele casando”, conta.

24 horas por dia disponível
Diferentemente do que ocorre com o psicólogo clínico, o profissional inserido na área esportiva vive um cotidiano diferente dos consultórios. “Eu tinha a mesma rotina de um preparador físico, estava disponível para o clube 24 horas por dia de terça a domingo, trabalhando junto da comissão técnica”, explica Suzy, lembrando que naquele período não conseguia usufruir de feriados nem finais de semana com a família.

Apesar de toda a pressão enfrentada pelos atletas nos dias de jogos, ela afirma que nesse momento não há muito que o psicólogo possa fazer. “O que tem que ser feito anteriormente já foi feito. Geralmente na noite anterior trabalhamos aspectos de concentração, de controle emocional, ajuste de motivação e principalmente o coletivo.”

Uma das tarefas feitas por Suzy foi mapear o perfil de um jogador profissional ideal. Com base nisso, ela analisa cada atleta, buscado seus pontos fortes conhecidos e os pontos fracos que podem ser trabalhados. Segundo a psicóloga, o ideal é começar esse programa no período de pré-temporada, sem a interferência da competição.

0 trabalho se intensifica com o avanço do campeonato até o momento em que o time chega na disputa do título. “Existem duas estruturas que trabalhamos para uma decisão. A primeira é a importância do evento e a segunda a incerteza do resultado, fatores que podem gerar expectativa e tensão. Leva vantagem quem estiver neutro a essa condições”, diz.

No caso de uma final, a receita do sucesso é focar a atenção do atleta no que é preciso ser feito, independente da importância do jogo. “Geralmente os jogadores mais maduros, não cronologicamente, mas psicologicamente, não ficam reféns nessas situações. Lembro que o Romário disse certa vez que se sentia como na várzea, fazendo uma pelada, antes da decisão da Copa do Mundo – ele não dava uma importância extra e fazia o que sabia fazer.”

A pressão da seleção em 2014
Suzy acredita que por jogar em casa, a seleção brasileira desta Copa do Mundo vai enfrentar uma pressão maior que as anteriores. “O grande risco, a meu ver, é que o atleta queira jogar ‘pro’ pai ver, ‘pra’ namorada ver – o que chamamos de jogar para adversários periféricos. Com isso ele perde a atenção. Ninguém pode estar mais interessado no jogo do que ele”, explica.

 

Para evitar que isso aconteça um dos trabalhos a ser feito pelo psicólogo é o de Psicóloga Suzy Fleuryevitar que o jogador se sinta intimidado pela torcida. “Um atleta de alto rendimento não precisaria contar com a torcida para jogar bem ou mal. Ele tem que jogar bem se ele estiver bem. Imagine, no caso do Brasil, se ele jogar mal e os torcedores começarem a reclamar. Se o jogador depender da torcida sua atuação vai piorar”, analisa a psicóloga.

Outro fator de atenção apontado por Suzy é a autoconfiança, principalmente por estar jogando em casa. “Tenho medo de autoconfiança. A falta dela é tão prejudicial quanto o excesso. Já vimos equipes perderem por excesso de confiança.” Quem se lembra de jogos do Brasil em Copas anteriores, como as de 1950 e 1982, sabe muito bem disso.

*Até o fim da Copa do Mundo, o VAGAS Profissões publicará, às quintas-feiras, uma série de reportagens sobre profissões e perfis que marcam o mundo do futebol. Não perca.