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Ethel, a primeira professora cega no ensino carioca

por Lucia Helena Corrêa (in memoriam)

De tão guerreira, em 1973, ainda no antigo Estado da Guanabara, Ethel Rosenfeld foi a primeira professora cega a lecionar na rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Um feito que, na época, lhe rendeu várias entrevistas aos veículos de comunicação do Brasil afora. Melhor: por conta da campanha publicitária e de uma série de palestras educativas, acabou sensibilizando uma companhia de telefonia móvel, que decidiu contratar pessoas com deficiência.

Ethel ficou cega aos 13 anos, consequência da extração de um pseudotumor no cérebro: a agulha utilizada na punção atingiu-lhe o nervo ótico. Além de deixá-la sem movimentos e sensibilidade tátil e térmica, por um ano, o erro médico resultou em cegueira irreversível. “Fiquei cega, mas não perdi a visão”, diz, entretanto, a professora, reproduzindo a assinatura do filme publicitário que ela protagoniza.

De fato, Ethel enxerga longe. O primeiro emprego dela, suprema ironia, foi como professora de Inglês num curso audiovisual. “Ironia, porque as pessoas não conseguem entender como um cego pode usar recursos audiovisuais. O que elas não sabem é que essa é a melhor opção no caso de professores que não enxergam, porque dispensa o uso do quadro negro”, explica.

As conquistas de Ethel, no entanto, só vieram por conta de muita luta. “Naquela época, a lei não permitia que os portadores de diferentes tipos e graus deficiência visual fossem admitidos no serviço público. Mas eu queria ser professora e levei minha reivindicação ao secretário de educação. Em outubro de 1973, me contrataram. Dois meses depois, fui chamada ao órgão que organizava os concursos públicos e me pediram para informar aos professores cegos que as portas foram abertas. Assim é que se removeu a barreira e consegui minha segunda matrícula”, conta.

Naquele caso, assim como em todas as demais batalhas, o argumento, que tem o respaldo da própria história de vida da professora, é fulminante.
“Deficiência não incapacita uma pessoa na sua totalidade; apenas a limita em alguns aspectos”, diz ela, que também faz escola no que diz respeito à liberdade do cego de ir e vir, sem depender de ninguém.
Direito de ir e vir
No Rio de Janeiro, Ethel também é pioneira no uso de cães guias. E desde 1998, quando foi impedida de entrar no Theatro Municipal acompanhada do labrador Gem, ela está engajada na luta contra mais esse preconceito, com o respaldo de autorização provisória, emitida pelo Serviço de Vigilância Sanitária, da Secretaria Municipal de Saúde.

Depois de vários decretos municipais e estaduais, finalmente, foi sancionada, em âmbito federal, a Lei nº 11.126, assinada pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, em 27 de junho de 2005, e que garante às pessoas cegas o direito à entrada e permanência em qualquer ambiente público e privado de uso coletivo acompanhadas de cães guias. Mais uma vitória de Ethel.

Melhor para ela que, hoje, não vai a lugar algum sem Cizar, o segundo cão guia na vida da professora. “Dizem que Cizar veio para colher os frutos que Gem plantou”, brinca.

Hoje, Ethel está aposentada e presta consultoria na área da deficiência e não para de se movimentar, politicamente. “Depois desses muitos anos, depois de tantos estudos e leis, concluí que ainda falta trabalhar um aspecto importantíssimo: a sociedade. De que adianta educar, reabilitar, fazer leis, se a sociedade não está preparada para conviver com as diferenças?”, questiona, explicando a razão do projeto de sensibilização “Buscando um Mundo Melhor para Todos”, que aborda todos os tipos de deficiências.

Ethel lecionou para crianças cegas na rede regular de ensino durante 15 anos seguintes. Ao longo de mais 12, foi chefe da seção de reabilitação de pessoas que ficam cegas na idade adulta. Depois, foi convidada pelo presidente da Funlar (Fundação Municipal Lar Escola Francisco de Paula), hoje, Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, onde desenvolveu o projeto de sensibilização e capacitação das pessoas ditas “normais” para melhor relacionamento com as pessoas com deficiência.

Ethel prestou consultoria, sobretudo, a empresas de transporte (ônibus, metrô, trem e companhias aéreas), ensinando os funcionários a lidar com passageiros e colegas que tenham algum tipo de deficiência. “Com a ajuda de um fisioterapeuta, eu explico, por exemplo, como o comissário deve tirar alguém da cadeira de rodas sem causar lesão na coluna ou qualquer outro tipo de dano ao deficiente físico”, conta a professora.

Ethel Rosenfeld