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Musicoterapia exige dedicação e estudos

por Kleber Gutierrez
fotos por Rogério Montenegro

A música sempre funcionou como um calmante da alma. Entre os gregos antigos, Apolo encantava os homens com os acordes extraídos de sua lira de ouro. A partir da 2ª Guerra Mundial, esse poder curativo foi devidamente reconhecido e a música passou a ser utilizada, cientificamente, com fins terapêuticos para reabilitar os soldados feridos nas batalhas, criando a chamada Musicoterapia. Contudo, não é qualquer músico que pode atuar como terapeuta. A carreira exige dedicação e anos de formação continuada.

Hoje, apesar de a Musicoterapia ser uma profissão que exige nível superior (graduação e pós-graduação) e ser reconhecida pelo Conselho Federal de Educação desde 1978, ainda não há cursos de formação em todos os estados da Federação. Contudo, os profissionais que lutaram por sua regulamentação também conquistaram o aval do Ministério do Trabalho e Emprego, com a inclusão dos musicoterapeutas no Código Brasileiro de Ocupação, o que permitiu aos terapeutas prestarem atendimento pelo Sistema Único de Saúde  e pelo Sistema Único de Assistência Social, com 46 procedimentos listados.

Para André Pereira Lindenberg, que será o próximo presidente da Associação dos Profissionais e Estudantes de Musicoterapia do Estado de São Paulo (Apemesp), a ser empossado até o final de abril de 2014, a música é uma grande ferramenta a serviço da reabilitação física e psicossocial. Ele cita que “diferentemente dos orientais, nós ocidentais nos apropriamos dos poderes curativos das plantas, mas não os aplicamos, como fazem os índios, com os cânticos que acompanham os trabalhos xamânicos ou de pajelança”.

“Deixamos de lado um ingrediente vital do processo curativo, que é a música. A Musicoterapia vem resgatar esse componente intrínseco das culturas ancestrais.”

Lindenberg diz que, por ser praticamente uma novidade no campo das ciências, a Musicoterapia tem um potencial infinito e inestimável de pesquisas em aberto ou em andamento. E menciona algumas, como a que desenvolve softwares para que surdos relacionem as notas musicais com core,s ou o ramo da vibroacústica, que desenvolve, entre outras inovações, camas de vibração sonora para tratamentos de pacientes com problemas neurológicos.

Som, ritmo, melodia e harmonia
Mas, se isso parece muito distante da realidade da maioria, ele lembra que sua ciência se fundamenta na utilização da música ou de seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) para facilitar e promover comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos para necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.

Lindenberg, por exemplo, trabalha há cinco anos na Santa Casa de São Paulo, em parceria com a ONG Arte Despertar, na recuperação de internados na unidade de tratamento intensivo. Com outra organização, a Sorrir é Viver, atua na formação dos médicos da Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André. “A Musicoterapia ajuda a humanizar os profissionais e os ambientes hospitalares.”

Adriana Freires Aragão é outra musicoterapeuta que dedica seu tempo para cuidar de doentes, alguns terminais. Formada pela FMU SP e com mais de 800 horas apenas em estágio, a profissional atua em parceria com ONGs há mais de 15 anos. Ela explica que o trabalho começa ao receber o diagnóstico da enfermidade do paciente, mas não só. “Aí procuramos entender a pessoa, sua origem e a identidade cultural e sonora.”

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Entre a vida e a morte
Ela lembra que o último sentido ativo em pacientes em coma é a audição. E que ainda que ela esteja fraca, “a música flutuante ou o banho sonoro criam ondas cuja reverberação percorrem todo o corpo”. Para Adriana, a Musicoterapia ajuda na compreensão e no controle da dor, além de trabalhar emoções e canalizar o choro. A profissional ressalta que, para atuar na saúde e em situações críticas, o musicoterapeuta deve estar preparado emocionalmente, pois pode ser “árduo lidar com o limiar entre a vida e a morte”. Mas lembra-se da satisfação por colaborar “para que alguém faça a passagem de maneira gentil, carinhosa e acolhedora”.

Ela lamenta que, como em outras áreas da Saúde, os investimentos estatais sejam poucos e que não haja muitos concursos públicos para a expansão da carreira. Mas reconhece que os avanços da profissão já foram muitos e que cada vez mais pessoas se beneficiam do empenho e cuidados dos profissionais de musicoterapia.

Se você se animou para abraçar esta causa, algumas áreas de atuação da Musicoterapia são clínicas e hospitais psiquiátricos; clínicas multidisciplinares; clínicas geriátricas; hospitais clínicos-gerais; centros e instituições de reabilitação pisocossocias ou físicos; escolas regulares e especiais; instituições sociais e públicas; consultórios particulares e empresas.