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Pediatria: entre o amor e a razão

Por Udo Simons

Eram 19h45, de uma segunda-feira quando a médica pediatra Débora Camargo Holanda conseguiu dar uma entrevista sobre seu trabalho. Naquele momento, já eram 38 horas sem dormir. Para ser mais exato, 34 horas, porque, como lembrou, conseguiu descansar por quatro horas em seu plantão. “Apesar de não dormir muito bem fora de casa”.

Todos os domingos, Débora começa a trabalhar às 7h00, no Hospital Municipal de Santana do Paranaíba, a 42 quilômetros da capital paulista. Levanta-se às 5h30 para conseguir chegar lá em tempo. Sai do hospital somente às 7h00 da manhã seguinte. Até então, domingo era o dia disponível para cuidar de sua vida pessoal. Naquela segunda, especificamente, muita coisa estava mudando. Ela finalizava a papelada da mudança de casa; e teve uma reunião às 18h00, quando formalizou o convite que recebera para trabalhar no Hospital da Beneficência Portuguesa, na capital.

“Agora também passo a atender de meio-dia à meia noite, todas as segundas”. Ou seja, é plantão no domingo e expediente de 12 horas seguidas nas segundas-feiras. E esses são apenas dois dias de sua agenda. Os demais dias são como um intrincado jogo de encaixe de horários em diversos hospitais, públicos e particulares, localizados em regiões opostas da cidade de São Paulo – Zonas Leste e Sul -, com exceção das quintas, ainda intactas.

Debora Camargo

“Essa realidade não é uma exclusividade minha. Sou pediatra plantonista de pronto-socorro. Quem desempenha essa função tem uma rotina similar, de muitas horas de trabalho”. Pudera, ela lembra que em um dos hospitais, a equipe pediátrica (quatro médicos) atende, regularmente, a 200 crianças em seis horas. Média de 50 pacientes para cada um deles. Segundo Débora, muito desse volume acontece porque os pais, preocupados com seus filhos e sem acesso a convênios médicos, utilizam os prontos-socorros dos hospitais, principalmente os públicos, para fazer a medicina preventiva de seus filhos. Ou seja, como tem pouco ou nenhum recurso para o acompanhamento em consultas particulares, vão ao hospital na primeira tosse ou espirro da criança.

Lidar com os pais em Pediatria é fundamental. Costuma-se dizer nessa área que: “Fácil é ser pediatra e não resolver a doença da criança. Difícil é ser mãe e ter de conviver com a dor do filho”.

Revela que, ser pediatra, principalmente plantonista, está longe de ser uma atividade “fácil”. Articulada, começou a entrevista relatando atendimentos, relação com colegas de profissão, deslocamentos. Contudo, ao ser questionada sobre seu lado humano ao lidar com a possibilidade da morte iminente, incertezas sobre diagnósticos, pressão de familiares por pareceres que salvem seus filhos, ficou emocionada. “Quando entro no carro, choro. Também sou humana”, disparou entre lágrimas.

Entretanto, no momento do trabalho, o espaço para a emoção fica em segundo plano. “Estou ali para resolver. Fico zerada de emoção. Sou total razão”, garante. É fácil entender a ênfase na racionalidade. Em seu cotidiano a pediatra precisa decidir rapidamente qual o procedimento mais adequado a tomar, quanto medicamento prescrever. Em muitas ocasiões, reanimar as crianças.

“Sou paga pelo Estado ou pela iniciativa privada para ser eficiente, salvar vidas, diagnosticar corretamente. O que faço não é trabalho voluntário”. Lembra quando era residente e uma chefe, ao seu lado, a viu com lágrimas nos olhos. “Ela me dizia: não chore! Você não vai enxergar nada do que está fazendo”. Até hoje, guarda consigo esse ensinamento.

Débora estudou medicina na UNIFESO, Centro Universitário Serra dos Órgãos, em Teresópolis, região Serrana do Rio de Janeiro. Formou-se em 2007. No ano seguinte, iniciou sua residência em São Paulo. “Antes de ser médica, o que queria era ser pediatra”, comenta. Essa vontade, porém, ela não sabe precisar como surgiu. “Talvez, por influência de uma prima. Talvez, nas aulas de ciência do colégio. Não sei ao certo”. Fato é: em sua carreira, dedica-se com afinco. “Criança não chega contando o que tem, temos de conquistá-las. Isso dá trabalho. Mas essa conquista é uma das coisas que mais gosto”.

E mais, pediatra tem que “gostar” de doença de criança. “Meu cotidiano é lidar com diarreia, nariz escorrendo e vômito. Esse é o grosso do quadro clínico nos prontos-socorros”. A ideia do bebê fofinho, cheirosinho inexiste e, por isso mesmo, “tem que gostar mesmo de criança”.

Outra característica importante dessa especialidade médica é a forma de receitar. “Dizem que pediatra sem calculadora não é ninguém”, conta. Isso acontece porque a prescrição dos medicamentos varia de acordo com o peso da criança. Ou seja, as dosagens têm de ser precisas para causar efeito. “O erro de um miligrama pode ser fatal”, garante. Apesar de tantas variantes imponderáveis, ela não pensa em trocar sua habilidade médica por outra especialidade. “Tenho muito amor pelo que faço”. Termina a entrevista e, ao se despedir, afirma: “Agora, é cama”.

Debora Camargo

Dicas de carreira da Débora:

  • Em pediatria, é preciso lidar com paciência. Saber o momento da doença se manifestar. A criança não sabe falar. Muitas vezes, os exames demoram. Por isso, é preciso administrar o tempo de espera para um diagnóstico preciso”;
  • Além de gostar de criança, é imprescindível ser dedicado, gostar de precisão (por causa da dosagem de medicamentos) e ser racional boa parte do tempo.

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