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Cirurgião vascular: a medicina na veia

Por Lucia Helena Corrêa
Foto de Alexis Flores Perez

“O difícil nós fazemos agora; o impossível leva um pouco mais de tempo”.

David Ben (1886-1973)

Todos os dias e, dependendo da urgência, inclusive aos sábados, domingos, feriados e dias santos, o cirurgião vascular Hermogenes Petean Filho, o doutor Petean, prova a tese do estadista israelense, realizando aquilo que, para a maioria dos médicos da especialidade dele, seria impossível: esculpir acessos venosos em doentes renais crônicos com veias problemáticas e nos quais o procedimento teria tudo para dar errado.

À pessoa que perde a função renal, além do transplante – que, quase sempre, demanda longo período de espera e preparação do receptor, para evitar a rejeição –, só resta uma opção: a purificação artificial do sangue. Qualquer que seja o tratamento usado para isso, ele requer disponibilidade de acesso venoso, primeiramente, na emergência, mediante aplicação de um cateter – na barriga, pescoço ou peito.

Depois, a construção de veia calibrosa, no braço ou na perna do paciente, capaz de receber duas agulhas de grossa espessura: uma para retirar o sangue e levá-lo à máquina; outra para devolvê-lo ao organismo, já devidamente purificado. Trata-se da fístula, cuja arquitetura, delicada e complexa, não raro, obra do quase impossível, é a especialidade do doutor Petean, de competência internacionalmente reconhecida.

Mas dizer tudo isso ainda é muito pouco. Aos mais de 40 anos de Medicina, o cirurgião que se formou, em 1973, pela Escola de Medicina Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ajudou a escrever a história da Nefrologia no Brasil, participando, em 1981, do primeiro transplante de rim, no Hospital Federal de Bonsucesso (HFB). Mais do que isso, porém, contribuiu para o aperfeiçoamento de todas as técnicas aplicadas ao tratamento de pacientes renais.

Hoje, já aposentado pela rede hospitalar pública, bem verdade, está longe de ser rico. “Ninguém enriquece fazendo Medicina”, ele descarta. “Apenas leva uma vida economicamente confortável”, admite. Mesmo depois de aposentado, algumas vezes, voltou ao HFB para transplantar pacientes que exigiam o bisturi dele, boa parte, crianças.

Mas o que é mais surpreendente nesse médico que dorme, em média, quatro horas por noite, é a disposição, a atitude acolhedora com a qual recebe, na HP Angioclínica, na Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio de Janeiro, cada um dos pacientes, boa parte deles, encaminhados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Pessoas que, “não por acaso”, segundo ele, somam à insuficiência renal a condição de mais extrema pobreza.

Dr. Petean contagia com seu entusiasmo e conforta seus pacientes. Não recua, mesmo depois de 12 a 14 cirurgias, ao longo de 16 horas diárias de trabalho, em média. Tudo isso sem contar as consultas, encaixadas nos intervalos, por ordem de chegada, e os telefonemas de colegas que a ele recorrem para checar o acerto de procedimentos clínicos e cirúrgicos.

No site do Doctoralia, www.doctoralia.com.br, serviço virtual que ajuda a encontrar médicos das diferentes especialidades, acumulam-se os depoimentos de pacientes gratos ao cirurgião vascular por ele lhes ter salvado a vida e, também, os registros que falam do jeito carinhoso do médico – bálsamo para os doentes e esperança nas criaturas, nesta época em que tanto se condena a qualidade técnica e humana da Medicina no Brasil.

Incansável, o doutor Petean ainda acha tempo e energia para fazer palestras, a fim de disseminar as técnicas por ele desenvolvidas e para a militância na profissão. A retomada dos transplantes de rins no HFB, em abril passado, suspensos durante dois meses, por falta de especialistas, tem o dedo dele. “O dedo só, não! Tem minha mão, meu braço, meu corpo inteiro. Muito mais, tem a paixão de quem ama o que faz”, ele próprio corrige.

Dicas de carreira do Dr. Petean

  • Gostar daquilo que faz e do contato com seres humanos;
  • Estudar sempre, para se manter atualizado e apurar a técnica;
  • Colocar-se, sempre, no lugar de quem sofre: a prioridade é o paciente;
  • Ouvir o paciente e tratá-lo com carinho, o que ajuda no processo de cura;
  • Observar a humildade: em Medicina, competência sem humildade não funciona.