Home > Carreiras > Marketing > O homem que trouxe o Baidu para o Brasil

O homem que trouxe o Baidu para o Brasil

Por Fabíola Lago
Fotos de Rogério Montenegro

Aos 24 anos ele foi contratado como gerente de operações para América Latina de uma empresa de games. Fala inglês, francês e espanhol fluentemente, além de se expressar muito bem em mandarim. Trabalhou em Londres e trouxe o segundo maior site de busca de mundo para o Brasil. Morou na Irlanda, conheceu França e Espanha, e reinventou sua carreira na China. Já saiu em várias matérias de tecnologia de revistas e sites renomados do segmento no Brasil. Recentemente, palestrou no maior evento de gestão do país, o HSM ExpoManagement. E tudo isso por conta de um visto negado na Embaixada do Canadá.

O alagoano que deixou Maceió para ganhar o mundo

O alagoano que deixou a periferia de Maceió para ganhar o mundo

Wesley Barbosa, atualmente com 27 anos, ao contrário do que se possa imaginar, não nasceu em berço de ouro ou teve acesso às melhores escolas. Alagoano, ele e os seus dois irmãos foram criados na comunidade Vergel do Lago, periferia de Maceió. Muitos de seus amigos de infância perderam suas vidas por causa do envolvimento com drogas. Mas Wesley, inspirado no exemplo de sua mãe, seguiu outros caminhos.

Aos 14 anos, ele viu dois turistas falando um idioma desconhecido. Era inglês. Achou que tinha que aprender e foi para um curso. Não tinha recursos para pagar e depois de dois anos, a mãe foi chamada pelas parcelas em atraso. Para sua surpresa, ao ter sua ficha revista pela coordenadora da escola, ganhou uma bolsa de estudos. Era um aluno modelo. Virou professor do curso. Mais tarde, ganhou seu primeiro computador e se tornou instrutor de informática.

Passou para Artes Cênicas na Universidade Federal de Alagoas, mas achou que o futuro estava no Marketing. Passou em outro vestibular, desta vez na Universidade Estácio de Sá. Ganhou a medalha “Alumni Diamante”, a maior honraria da universidade, por sua carreira e contribuição à sociedade, como um dos melhores alunos que a instituição já teve.

“Achei que era o momento de ganhar fluência em inglês e ir para o Canadá, mas meu visto foi negado. Os funcionários da embaixada perceberam minhas condições e devolveram todo o valor da documentação, que normalmente não é reembolsado”, conta. Com o sonho frustrado, não desistiu. Chegou em casa, analisou no mapa todos os países de língua inglesa e resolveu ir para Irlanda. Pegou cerca de 3 mil euros, entrou em um intercâmbio de um mês e partiu para o Reino Unido.

Passou um mês e Wesley gostou da experiência, queria ficar mais. O problema é que, sem trabalho, restava pouco da poupança para estender a estadia. Um amigo francês perguntou se ele daria aulas particulares de inglês. Topou. Foi comemorar em um pub com os amigos a nova renda, que possibilitaria ficar mais uns tempos em Dublin e conseguiu mais três alunos. “Cheguei a emagrecer 13 quilos naquela época pois, pelos meus cálculos, só dava para fazer uma refeição por dia”, conta.

Já que estava na Irlanda, por que não conhecer Londres? Foi. Rapidamente conseguiu uma vaga como trainee em relações públicas de uma empresa de consultoria para bancos, a Fin International. Aplicou seus conhecimentos de neuromarketing e propôs uma campanha. Sucesso. Também viajou para a França, Escócia e Espanha. Em 2010, voltou para o Brasil.

Confiante com sua experiência internacional, Wesley se inscreveu em vários programas de trainee. Passou em doze.

“Dos três que escolhi, no processo seletivo disseram que eu já estava muito acima do nível de um trainee. A avaliação era de que eu ficaria pouco tempo e depois iria embora.”

Sem emprego, voltou para Maceió.

“A resiliência me dá criatividade. Quando cheguei em Maceió, comprei um exemplar da revista Exame, uma edição especial sobre a China. Terminei de ler e não tive dúvida: avisei minha mãe que iria para China.”

Fez freelas como webdesigner, poupou e em dois meses o destino de Wesley era  Pequim. Novos desafios; desta vez, em mandarim. Começou como estagiário pela STB ganhando o equivalente a R$ 500,00 (2 mil yuans). Contrato de três meses.

Em 45 dias, o criador do jogo Colheita Feliz ligou para Wesley. Encontrou seu currículo na Brapeq (Brasileiros em Pequim). “Ele me perguntou o que eu sabia sobre a economia brasileira. Dividi o mapa do país em quatro regiões e descrevi os fatores de crescimento em cada uma. Ficaram empolgados e me contrataram. Eu tinha 24 anos, era diretor e tinha um salário equivalente a 8 mil reais”, descreve o alagoano. Segundo Wesley, o acordo era simples: se não desse resultado, seu cargo seria revisto.

O resultado veio: a empresa se tornou a terceira maior em jogos sociais em todo o mundo.  Wesley vinha para o Brasil dar palestras sobre jogos sociais e voltava para a China. Ainda lá, trabalhou na Happy Element e foi contratado por Per Desson, executivo de games, que o encontrou pelo Linkedin, para lançar jogos sociais no Brasil. “Pedi demissão aos chineses da Elex e mandei e-mail para Per Besson aceitando a proposta de entrar na Happy Elements”.

Wesley ganhou visibilidade como gerente de operações e tinha o mesmo salário da alta diretoria da empresa.  Um ano e pouco depois, de férias nas Filipinas, Desson contou que havia jantado com o pessoal do Baidu, “o Google chinês”. O executivo (que ainda era seu chefe) indicou Wesley para o Baidu, o segundo maior site de busca do mundo, que queria vir para o Brasil.

“Fui contratado como Business Controller na América Latina. Uma empresa com 22 mil funcionários. Festejei no meu Twitter e, quando menos esperava, estava sendo entrevistado para cadernos de tecnologia. ‘Chinês vem ao Brasil competir com o Google’ era a manchete.” Wesley começou a operação do zero e, em pouco tempo, um dos produtos do Baidu se tornou o 12º site mais acessado do país.

Muito recentemente, Wesley fechou seu ciclo no Baidu e já se prepara para novos desafios. Aproveitou para fazer cursos na Harvard Law School e na Columbia Business School.

“Quando cheguei em Harvard, não resisti, fiquei emocionado e mandei uma foto para minha mãe. ‘Olha só onde nós chegamos’, eu disse a ela.”

Gosta de brincar que tudo isso aconteceu por causa do carimbo de visto negado para o Canadá. Se não tivesse acontecido, talvez não tivesse tido experiências tão diferenciadas na carreira. “Para mim, sucesso é mudar a vida de alguém, como a minha mãe mudou a nossa”, diz o pai de Sophia, de dois anos.