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A receita para um bom intérprete de conferência

por Guss de Lucca
fotos por Ailton de Oliveira

Quem teve oportunidade de assistir a uma palestra com convidados internacionais já entrou em contato com um intérprete de conferência. Se não pessoalmente, com certeza no palco, ao lado dos estrangeiros, ou apenas ouvindo sua voz, que sai pelos fones dos aparelhos distribuídos na entrada. Nesses casos, para saber onde é feita a tradução, basta procurar por uma cabine pequena, geralmente no fundo da sala.

Responsável pela tradução simultânea em eventos e reuniões, o intérprete tem como principal característica a habilidade de pensar em dois ou mais idiomas – o que, nas palavras de Suzana Mizne, é “um dom”. “É o contrário da afasia: você tem um desenvolvimento no cérebro que o permite pensar em mais línguas. É raro encontrar um bom intérprete que não tenha essa capacidade”, diz.

Formada pela Universidade de Genebra, na Suíça, uma das raras instituições que na época formavam intérpretes profissionalmente, Suzana faz há 43 anos traduções em inglês, alemão, francês, espanhol e italiano. “Para trabalhar é importante que o intérprete tenha uma formação universitária e um curso de tradução simultânea. Hoje é comum encontrar profissionais de outros setores, como advogados, médicos e psicólogos, que começam fazendo tradução em suas áreas e depois avançam”, explica.

Dominando a terminologia
A vantagem desses profissionais é dominar a terminologia de assuntos próprios de suas especialidades – coisa que os intérpretes sempre estão buscando melhorar. “É preciso se preparar para cada evento, saber quem são os oradores e os assuntos abordados. Normalmente o tradutor pede para a organização algum material de estudo – o que nem sempre acontece. Mas cabe a ele fazer um glossário com os termos técnicos que podem surgir.”

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E por mais preparo que tenha feito, o bom intérprete está sempre atento a dicas que possam complementar seu trabalho – algo que, por experiência, Suzane sabe que não necessariamente vem da melhor forma. “Sempre peço comentários sobre as traduções, dicas de quem entende do assunto tratado no evento. Mas já aconteceu, durante uma coletiva de imprensa, de um repórter estrangeiro começar a me corrigir em público – na verdade usando sinônimos das palavras que eu dizia. Na terceira interferência pedi pra ele trocar de lugar comigo. O rapaz ficou verde e não abriu mais a boca”, recorda ela com bom humor.

Loucura e discrição
Outra característica que Suzane atribui ao intérprete profissional é a discrição: é importante saber passar despercebido mesmo ao lado de uma celebridade. “Já aconteceu comigo várias vezes de fazer o possível pra não aparecer em fotos”, relata.

Junto com a discrição, a confiança também ajuda o profissional a estar em alta no mercado. “Muitas vezes as empresas preferem chamar um tradutor ao invés de alguém do ramo, pois os assuntos tratados são de extrema confidencialidade – como fusões, aquisições ou reuniões técnicas sobre uma descoberta. Nesses casos assinamos um termo. Se algo vazar eles podem nos processar.”

Questionada sobre a diferença entre trabalhar para um auditório de 3 mil pessoas e estar em uma sala com apenas dois clientes, Suzana diz que não vê mudança. “O que varia é a quantidade de horas trabalhadas. Em média são seis horas diárias, sendo o máximo oito, pois é um trabalho que exige muita concentração. Quando o evento demanda oito ou mais horas vamos ao menos três – cada um cobrando apenas por seis horas.”

Recebendo por dia trabalhado, Suzane diz que em média consegue serviço para dez dias por mês. “Tem períodos do ano mais turbulentos, com mais eventos, como março/abril/maio e depois agosto/setembro/outubro. Dezembro e janeiro são meses mais parados. Isso é assim no mundo inteiro”, explica. Ela ressalta, no entanto, que poucos são os colegas com mais de 35 anos que se sustentam apenas com a profissão.

Mercado esporádico, mas receptivo
Mas isso não é motivo para desanimar. Os interessados em entrar no universo dos tradutores vão encontrar um mercado esporádico, mas receptivo a bons profissionais. “Tem espaço. Nos últimos anos o número de membros da APIC (Associação Profissional de Intérpretes de Conferência) , grupo do qual sou uma das fundadoras, aumentou muito – e o mercado tem absorvido essas pessoas.”

Para tanto, além do domínio de uma ou mais línguas, Suzane acha que o futuro intérprete precisa ter um pouco de loucura no currículo. “É uma profissão extremamente desgastante. Precisa ser louco. Mas se você gosta, não há satisfação maior. Na semana passada cuidei de um grupo de pessoas com sotaques do mundo inteiro, todas dependendo do meu trabalho pra se entender”, conta.