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O índio escritor que conhece a origem do sol

Por Udo Simons

Olívio Jekupe nasceu mestiço em Nova Itacolomy, Paraná. Ele é filho de pai baiano e mãe de ascendência indígena. Por toda sua infância, viveu se mudando por diversas cidades do interior paranaense. “Meu pai era motorista de ônibus, tínhamos de acompanhá-lo em seu trabalho.” Mas é de Cornélio Procópio, cidade no norte do Paraná, o lugar de onde ele resguarda a maior parte de sua memória quando criança. “Foi lá que vivi mais tempo.”

A história de Olívio poderia ter seguido o curso de tantas outras similares a dele. De tantos outros filhos de culturas distintas. De tantas outras crianças de famílias com poucos recursos financeiros. Ele poderia ter conseguido emprego de motorista como o pai. Ou ter ido trabalhar na lavoura, fonte econômica de vários municípios no interior paranaense. Entretanto, quando adolescente, encontrou em seu caminho uma biblioteca.

“Acho que era a do SESC. Ia para lá quase todos os dias e lia. Lia muitos livros.”

Nesse encontro sua vida mudou. Logo, tornara-se escritor.

“Tomei gosto pela escrita. Passei a escrever muito. Não consegui mais parar.”

Assim, aos 17 anos, em 1982, surgiu o escritor de poesias. Surgiu, também, o ativista social pela causa indígena, pois, pelo contato com a literatura, percebeu a possibilidade de influenciar a sociedade sobre a história dos índios. “Os ‘brancos’ precisam reconhecer a diferença de cada povo indígena.” A partir desse pensamento, ele orienta suas três décadas de trabalho literário com a publicação de treze livros que vão da poesia ao que chama de contos de literatura nativa.

“Índios são considerados povos nativos. O que faço é escrever sobre eles. Portanto, considero minha literatura nativa.”

Sua mais recente obra, As Queixadas e outros contos guaranis, saiu este ano pela editora FTD. “É uma antologia indígena. Reúne textos meus e de outros índios guarani”, comenta. A FTD descreve o livro como:

Coletânea de sete contos da cultura guarani, de cinco autores. A maior parte deles conta a origem de alguma coisa: por que é tão difícil caçar o urubu-rei; a origem do sol e da lua; por que os sapos fazem tanto barulho à noite; como um menino valente colocou limites ao sol, ao vento e ao frio; a primeira e única moça que virou sereia; um coelho silvestre (tapixi) tímido, mas curioso; o indígena que conheceu a Terra sem Males (Yvy Marãhe’y).

O escritor vive na aldeia Krukutu, extremo sul da capital paulista, recepcionando turistas, organizando o coral infantil da aldeia, fazendo palestras. Sobretudo, falando sobre a causa indígena pelas redes sociais — ele é usuário assíduo do Facebook. “Normalmente, as pessoas acham o índio atrasado. Comprovo o contrário.” Olívio cursou duas universidades de Filosofia — por dois anos na PUC de Curitiba; e por quatro anos na USP. “Não me formei por dificuldade financeira. Ao mesmo tempo em que estudava, precisava trabalhar para me manter.” Com isso, à época, lecionou Filosofia em escolas públicas do ensino médio.