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Locutores: as vozes do futebol-espetáculo

por Guss de Lucca
fotos: arquivo pessoal

Dentro do campo o futebol é um jogo feito de corpos e ideias. Fora dele é um esporte de vozes. No estádio as vozes da torcida, que grita a favor ou contra de seu time ou dos adversários. No resto do mundo são as vozes dos locutores as grandes responsáveis pela disseminação do esporte. No caso do Brasil a locução esportiva teve início em 1932, com Nicolau Tuma, autor da primeira transmissão de um jogo de futebol do rádio brasileiro. De lá para os dias de hoje muita coisa mudou por conta da tecnologia, mas a responsabilidade do locutor continua a mesma: contagiar aqueles que assistem ou ouvem os jogos em qualquer lugar.

O jornalista Nivaldo Prieto, da Band, é um dos nomes em alta na narração brasileira. Com 24 anos de experiência, ele já passou por emissoras como SBT, Cultura, Globo e TVA Esportes (atual ESPN). Mesmo assim, o locutor acha difícil dizer qual o segredo de um bom profissional. “Eu não sei te dizer se existe um segredo ou até mesmo desvendá-lo. Quando comecei tinha alguns profissionais que eram boas referências, como o Luciano do Vale, mas sabia que não podia ser igual a eles. A cópia sempre é ruim, nunca será melhor que o original. E eu não queria isso pra mim. Queria adotar um estilo meu. Talvez seja a forma mais difícil de construir uma carreira, mas é o que acho que funciona.”

Sobre o uso de bordões, que são expressões comumente repetidas pelos locutores esportivos em determinadas situações, Prieto diz que nunca fez uso da ferramenta, tão comum no futebol. “Sempre explorei muito pouco. Mas vejo profissionais que entendem que é algo importante, um tipo de alavanca para a carreira. Até acredito que seja legal e não posso dizer que nunca farei, mas não me apeguei a isso”, afirma.

 

Locutor Esportivo Nivaldo Prieto da BandeirantesImparcialidade na locução
A imparcialidade também é um tema recorrente na locução. E, apesar de a favor dela em torneios locais, Prieto acredita que no caso específico da Copa do Mundo existem limites. “Por mais que queiram levantar a bandeira da imparcialidade não dá pra gritar um gol da seleção brasileira e um da Espanha contra o Brasil no mesmo tom. Nem pega bem. Como vou esconder que não torço pro nosso time? Meu público é o brasileiro.”

Seja para uma partida de futebol ou corrida de carros, o locutor da Band não dispensa uma boa preparação – mesmo ciente que nem sempre a rotina da TV reserve esse tempo ao profissional da locução. “Quando entro num universo do qual estava afastado, caso da Fórmula Indy, que agora sou o locutor oficial, faço um trabalho de imersão, com estudo diário do tema. No caso do futebol há um trabalho de produção que precisa ser muito atencioso. Cada campeonato tem suas particularidades, como o Brasileiro, que é muito longo e te permite acrescentar coisas no decorrer dos jogos”, diz.

Pensando no mercado atual, ele acredita que os novos profissionais encontram mais espaço do que no período em que começou. “Hoje tem mais portas para bater. Na minha época o número era limitadíssimo. Agora você encontra TVs por assinatura, emissoras a cabo, sites de internet que transmitem jogos… O importante é ser persistente, pois é muito difícil o cara que quer ser narrador ser contratado no primeiro lugar que chegar. Vai tomar nãos. Eu tomei um monte, mas estou aqui”, conclui.

Uma Copa especial
Locutor esportivo e apresentador da ESPN Brasil, Paulo Andrade se prepara para narrar sua terceira Copa do Mundo. Escalado tanto para o jogo de abertura, entre Brasil e Croácia, na Arena Corinthians, quanto para a aguardada final, no Maracanã, Andrade diz que apesar da correria nos bastidores ainda não está totalmente voltado à Copa por conta dos campeonatos europeus.

A empolgação do locutor com a disputa não é à toa. A final do torneio de 2009, disputada entre Manchester e Barcelona, é tida por ele como um dos momentos mais emocionantes de sua carreira. “Cresci assistindo ao campeonato da Europa e essa foi a primeira vez que narrei in loco, na cidade de Roma. Foi emocionante ouvir o tema de abertura ao vivo, no estádio, com o arranjo da cerimônia. Tive que segurar a emoção e dizer pra mim que não podia chorar, pois não dava pra entrar no ar com a voz embargada.”Locutor Esportivo e Apresentador Paulo Andrade da ESPN

 

Mesmo assim, ele sabe que quando a Copa começar toda sua atenção se voltará ao torneio. “É preciso saber respeitar o período da Copa. Quem trabalha com jornalismo esportivo fica 24 horas ligado no evento. Mesmo quando não estou apresentando ou narrando, fico de olho em tudo o que acontece ao redor”, revela o locutor, que aponta o clima como principal mudança do campeonato em comparação com os anteriores.

Atmosfera dentro e fora do estádio
“O locutor é envolvido pela atmosfera dentro e fora do estádio – não tem como separar. Levamos pra dentro da cabine de locução o que a gente vive nas cidades onde as partidas acontecem. E em se tratando de seleção brasileira, já tivemos amostras que o clima será muito especial nos dias de jogos. Imagino que será mais especial do que foi narrar as Copas em outros países”, acredita.

Para os empolgados pelo clima do torneio que queiram entrar no universo da locução esportiva, ele acredita que a primeira coisa é descobrir se o candidato possui talento para a narração. “Precisa ter o dom para a coisa. Porque reportagem e apresentação você melhora com o tempo, mas sem o dom você até narra, mas não consegue desempenhar direito o papel do locutor. Eu fui fazer jornalismo depois de descobrir que tinha o dom para narrar. Mas nunca fiz curso de locução ou visitei um fonoaudiólogo.”