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Crítico de cinema tem rotina para lá de agitada

por Joceval Santana
fotos por Sora Maia

João Carlos Sampaio não vacila em afirmar que, atualmente, o email é o seu endereço e o computador, seu lar. Para não se adiantar e achar que ele está exagerando, basta dar uma olhada na agitada agenda deste crítico de cinema nos últimos anos. São cerca de 40 festivais e mostras anualmente no Brasil que ele acompanha. Ele viaja pelo menos duas vezes por mês e tem alguns meses nos quais não chega a passar cinco dias em casa. Casa? Sim, aquele apartamento que fica no bairro da Amaralina, em Salvador, pertinho da praia, e no qual João praticamente faz escalas.

Este ano, ele completa a maioridade profissional, 21 anos, já que estreou como crítico, oficialmente, em 1993, no extinto jornal Bahia Hoje. Ele lembra que destacou o filme Cães de Aluguel (1992), como um dos melhores filmes visto em 1993 e apontava o nome de Quentin Tarantino como um jovem diretor promissor. Ok, um tiro no alvo! “Naquela época, havia quatro ou cinco festivais fixos, importantes, no Brasil”, lembra ele. O número se multiplicou e como ele, analisa João, a consciência de que a cultura deve fazer parte da formação do indivíduo, como algo mais presente no seu dia a dia.

“O País passou a ter uma exigência na produção e difusão cultural, em todas as áreas artísticas”, diz. Tanto que, tratando-se do cinema, ele observa que boa parte do público brasileiro está nos festivais, verdadeiras plataformas de diversidade, reunindo produções de vários países e contextos socioculturais. Fala com propriedade: membro-fundador e integrante da diretoria da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, João já foi júri de festivais importantes do País, como o de Brasília-DF, o de Gramado-RS, e da Mostra Internacional de São Paulo. No currículo, já compôs o colegiado para indicação do filme brasileiro ao Oscar. E um orgulho: é o segundo crítico de cinema nascido na pequena Aratuípe, com 8,5 mil habitantes.

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E, se a multiplicidade tomou conta da cena, passou a fazer parte também do currículo de João. Hoje, ele integra um seleto grupo de profissionais que desempenham várias funções ou tarefas em eventos cinematográficos. Entre elas, curadoria, consultoria, júri e atividades de formação, como seminários e oficinas. Atuando assim em várias frentes, ele consegue acompanhar por diferentes ângulos o cinema que é feito hoje no mundo, bem como entender como os profissionais e o público brasileiro se relacionam com ele.

“O que faço hoje não se limita à crítica de cinema. A variedade dos campos de atuação foi a forma que encontrei para estar no mercado, respondendo a uma demanda de tarefas que foi crescendo. São novas demandas, novos desafios, novas mídias”, contextualiza. E um fator determinante: sobrevivência, difícil de alcançar só como crítico ou jornalista especializado. Atualmente, João é colaborador fixo do jornal A Tarde, para o qual escreve semanalmente com resenhas de filmes, matérias de lançamento e entrevistas, com várias inserções durante a semana.

Com tão pouco tempo em casa e se comunicando com os amigos mais pelas ferramentas que o mundo tecnológico dispõe, João fica sempre com a impressão de eles, sim, estarem fazendo muitas coisas – enquanto ele mesmo está armando e desarmando o acampamento com os festivais. Foi com esta imagem que descreveu o grande circuito de mostras e exibições no País. Aos 44 anos, fôlego é o que não falta para esta correria. Sempre atrás do que está acontecendo no momento: ferramentas, plataformas, linguagens, abordagens, temas, técnicas, nomes.

“Para uma arte de tradição recente, a produção cinematográfica é muito grande e diversificada hoje em dia”, destaca. E, neste vasto panorama, o crítico também atualizou o seu papel e responsabilidade, atuando num espaço de urgência muito grande. “A crítica é uma análise. Qualquer pessoa tem uma opinião. À crítica, cabe a interpretação daquela visão que o filme propõe”, conceitua.