Home > Carreiras > Geografia > Geógrafo: é possível viver sem desperdício

Geógrafo: é possível viver sem desperdício

Luciano Legaspe recolhe abelhas em casas, empresas e áreas públicas

por Guss de Lucca
fotos por Ailton de Oliveira

A trajetória do geógrafo Luciano Legaspe é curiosa. Após estudar em um colégio agrícola em Jundiaí, no interior de São Paulo, onde se formou como técnico em agropecuária, ele veio para capital pensando em fazer veterinária ou geografia. “Achei oportuno optar pela geografia, pois seria uma forma de continuar o que eu achava importante: estudar o homem, o espaço e as intervenções dele na natureza”, conta.

A vida na metrópole o encaminhou ao Ceagesp (Companhia de Armazéns Gerais do Estado de São Paulo), onde são comercializados diariamente toneladas de frutas, legumes, verduras e pescados. É lá que há 31 anos Legaspe passa metade do seu dia. “Hoje eu entro bem cedo, por volta das 5h30. Deixo o Ceagesp às 15h e começo meu segundo turno de trabalho, que invariavelmente envolve apicultura ou plantação.”

Residente em Cotia, há 30 quilômetros de São Paulo, o geógrafo aproveita o espaço de seu sítio para cuidar de enxames de abelhas que ele mesmo recolhe – um trabalho pioneiro desenvolvido na última década que visa, em primeira estância, preservar o ecossistema da região.

Cadeia alimentar
“Trabalhando no Ceagesp percebi que as pessoas matavam muitas abelhas que ali viviam. Disse à empresa que aquilo era um absurdo pois elas são a base da produção da cadeia alimentar de frutas, verduras e legumes. Eles acharam meu ponto de vista interessante e me pagaram um curso de apicultura”, relata  Legaspe, que acabou indo além do que aprendeu nas aulas.

O curso era voltado para quem quer ter abelhas presas em caixinhas, visando a produção de mel. No caso dele, precisava aprender a capturar abelhas em centros urbanos – “e isso não é ensinado em lugar algum”. Por isso, desenvolveu equipamentos e técnicas de captura e acabou se especializando.

Luciano Legaspe geógrafo Ceagesp abelhas criação

Como está praticamente sozinho no ramo da apicultura de captura, ele é acionado diariamente para recolher abelhas em casas, empresas e áreas públicas, muitas vezes indicado pelo Centro de Controle de Zoonoses e o Corpo de Bombeiros. “Eu não mato as abelhas. Levo-as pro meu sítio, onde tenho licença para criação”, diz.

Lá, além de criar enxames para si, o geógrafo também os vende aos interessados em adentrar na apicultura, dando cursos sobre como trabalhar com abelhas aos iniciantes. “Nesse momento estou com 32 enxames, mas já cheguei a ter 70.”

Consciência verde desde sempre
Ele conta que seus pais sempre o incentivaram a aproveitar tudo ao máximo. “Numa época em que não existiam receitas para usar casca de banana, meu pai fazia molho com casca de banana – nem sempre era uma maravilha, às vezes um sacrifício, mas ele insistia pra gente comer porque era importante aprender a usar o que tínhamos no limite”, relembra.

Os frutos dessa educação são colhidos hoje em sua casa, construída para causar o menor impacto possível na natureza. Entre as peculiaridades da residência estão um sistema de aquecimento solar e uma turbina eólica para movimentar a água sem depender de energia elétrica.

“O bairro onde moro não recebe água da Sabesp. Por isso uso um poço artesiano e um sistema de captação de chuva. Quando chove eu armazeno a água. Hoje tenho 120 mil litros guardados. E como em casa temos uma rede de reuso de água, isso acaba multiplicado por dois. Dá pra passar a estiagem com folga”, explica  Legaspe.

O geógrafo acredita que a melhor forma de mudar a sociedade é permitir que a iniciativa privada transforme o desperdício em negócio. “Meu trabalho é estudar e pesquisar se aquilo que é lixo para outras pessoas pode virar um filão de negócio autossustentável e viável dentro da iniciativa privada.”