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Olho no lance é lema para o fotógrafo de campo

por Guss de Lucca
fotos: arquivo pessoal

O futebol é um esporte dinâmico, onde tudo acontece rapidamente e lances podem passar desapercebido por juízes, técnicos e torcida – mas raramente pelo fotógrafo de campo. Esse profissional das lentes, tão comum nas laterais do jogo, tem como missão traduzir em apenas uma imagem toda a emoção de um lance, que muitas vezes define os 90 minutos da partida. E, faltando apenas duas semanas para o início da Copa do Mundo, haja lance emocionante para ser fotografado.

Veterano dos estádios, o fotógrafo oficial do Corinthians, Daniel Augusto Jr, começou a trabalhar no universo das imagens enquanto estudava Jornalismo. “Foi com o Jean Solari, que havia trabalhado na revista Realidade, que tomei gosto pelo fotojornalismo. Por causa dele deixei o estúdio, a foto produzida, e fui pras ruas.”

Já a estreia nos estádios foi motivada pela paixão por futebol. Como integrante da agência F4, formada por um grupo de fotógrafos freelancers, Augusto resolveu investir seu tempo clicando jogos. “O arquivo da agência era pobre na área esportiva, por isso comecei a fotografar torcidas, bandeiras e tudo relacionado ao futebol”, explica.

Registrando a superação do Corinthians
Depois de passar por diversos veículos, como os jornais Folha de São Paulo, Globo e Lance!, ele foi convidado em 2003 para trabalhar no site do Corinthians. E foi lá, cinco anos depois, no momento em que o clube alvinegro foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, que surgiu a oportunidade de registrar sua história de superação em imagens.

 

“Nesse período pude acompanhar o Corinthians de perto, pois sabia que o retorno Fotógrafo do Corinthians Daniel Augusto Jrdo time para a série A renderia uma baita história”, conta, orgulhoso de seu trabalho, que resultou no primeiro de oito livros lançados sobre o clube – sete focados em títulos vencidos e um sobre o técnico Tite.

Não por acaso, a foto (imagem de destaque desta matéria) mais marcante de sua carreira, um gol marcado por Tupãzinho em 1990, no primeiro Campeonato Brasileiro ganho pelo Corinthians, integra a exposição do memorial do time. “Todos os elementos estão lá: atacante, zagueiros, bola… E, além disso, foi feita no contraluz, quebrando a máxima de o sol ter que estar nas costas do fotógrafo. Por isso a considero uma das minhas melhores fotos.”

As regras do jogo
Apesar de ter uma carreira majoritariamente freelancer, a passagem por veículos como contratado lhe apresentou um panorama da profissão. “Quando você é contratado por uma empresa jornalística o seu material é propriedade deles. Então você recebe o salário e mais uma pequena comissão por cada foto vendida para outros meios de comunicação.”

De acordo com ele, esse formato, desenvolvido no Brasil pela Agência Estado, foi o responsável por absorver a maioria dos profissionais após o esvaziamento das redações e aumento das agências de imagem. “Perdemos posições dentro dos jornais, como os cargos de editor adjunto, editor assistente e por fim editor de fotografia. Hoje o grande mercado está nas agências”, diz.

O que nem todos os profissionais sabem é que todo o material produzido é protegido pela Lei do Direito Autoral, que Augusto conhece muito bem. “Aos olhos da lei 9.610/98 cada foto minha é como uma pintura de Matisse, um Picasso, e precisa ser respeitada. Isso devia ser ensinado nas faculdades, pra evitar que os estagiários usem imagens tiradas da internet de qualquer jeito. Já ganhei inúmeros processos por uso indevido de fotografias minhas.”

Fotojornalista Julia Chequer do Jornal AgoraRádio na orelha e olho na bola
Há dois anos cobrindo regularmente partidas de futebol pelo jornal Agora, a fotojornalista Julia Chequer suou para conquistar seu espaço num ambiente majoritariamente masculino. Entre boladas na lente da câmera e provocações da torcida, ela já está mais que habituada ao clima das partidas de futebol. Um dos segredos, de acordo com ela, está no rádio, companheiro inseparável nos dias de jogo.

“O desafio do fotógrafo é contar a história da partida com a imagem – e muita coisa acontece ao mesmo tempo. Por isso escuto o jogo no rádio enquanto fotografo. Às vezes o lance está do outro lado do campo e eu não vi se foi falta, pênalti. Nesses casos o rádio ajuda. E também pra não ouvir quando a torcida te xinga ou passa cantadas”, relata a fotógrafa com bom humor.

Julia atribui a boa relação com os colegas um dos fatores que contribuiu para o crescimento profissional. “Não é fácil cavar um espaço nesse meio. Todo mundo quer olhar seu trabalho, dar pitaco, mas no fim os fotógrafos se revelam como uma categoria solidária. A gente passa tanto perrengue junto no campo – às vezes chove, faz sol demais, não pega internet, tomamos boladas – que acabamos nos ajudando”, revela.

Perrengues da profissãoJulia Chequer do Jornal Agora
Entre os ditos perrengues, a fotógrafa destaca uma partida entre Corinthians e Palmeiras no Pacaembu em que torcedores começaram a arrancar as cadeiras e arremessar no campo. “Começou a voar um monte de coisa e a gente não sabia se iam invadir”, lembra ela.

Aos interessados em se aventurar nas beiradas dos campos, Julia acredita que, além de estudar técnicas de fotografia, o importante é aprender a lidar com o fluxo de trabalho. “A gente fotografa, joga no computador, edita, legenda e transmite cada foto de dentro do campo. E precisa ser voando – principalmente quem trabalha com agências de imagens, que dependem da rapidez pra vender alguma coisa, pois os clientes querem comprar a primeira foto que chega.”