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A metrópole sob o olhar atento do fotógrafo Tiago Queiroz

Por Nilva Bianco

Fotos: Rogério Montenegro

Aos 14 anos, quando ainda não tinha ideia do que iria fazer da vida, Tiago Queiroz foi convocado pelo pai para um pequeno estágio em seu escritório de advocacia. Um belo dia, ao entrar na sala onde o filho estava cumprindo expediente, Seu Luciano encontrou-o dormindo sobre a mesa. Após o episódio, que virou história na família, Tiago teve ao menos uma certeza: seu futuro não estava em um escritório. Preferia inclusive os serviços de office boy, quando ao menos podia andar à vontade pelas ruas de São Paulo.

Tiago Queiroz: olhar cada vez mais agudo e humano

Tiago Queiroz: olhar cada vez mais agudo e humano

Passados 20 anos, é isso que Tiago faz todos os dias: andar por São Paulo, agora como fotógrafo. Ele encontrou a profissão sob medida para a sua inquietude após uma série de “descobertas”, que começou com uma máquina fotográfica antiga herdada do avô, prosseguiu com a experiência inesquecível de entrar em um laboratório fotográfico pela primeira vez (enquanto servia o Exército) e depois com os cursos de fotografia básica no Senac, antes de finalmente entrar na faculdade de jornalismo na PUC-SP.

“Na época ainda não havia faculdade de fotografia em São Paulo, e fazer uma faculdade de jornalismo foi positivo, pois pude me desenvolver integralmente como repórter.”

Já formado, Tiago passou quatro anos em uma editora de publicações segmentadas e depois entrou neste que é o seu segundo emprego. Só no jornal O Estado de S.Paulo é fotógrafo há 11 anos . Faz parte de um time de mais de 20 profissionais experientes que abastecem não apenas o jornal, mas também a Agência Estado. Seu trabalho é receber a pauta do dia – seja ela de economia, esportes, cidade ou qualquer outra editoria – e cumpri-la, voltando à redação com as imagens que deverão ilustrar as matérias produzidas pelos repórteres.

Mais de uma década sem rotina, algo com o que aquele Tiago de 14 anos só podia sonhar ao dormir sobre a mesa no escritório do pai. “No começo do dia você pode estar em uma favela no extremo da cidade, e dali a pouco ter que fotografar um restaurante chique nos Jardins”, comenta o fotógrafo, que em todos esses anos aprimorou não apenas a sua técnica, mas principalmente o seu olhar: em vez de anestesiar-se com contrastes da metrópole, ficou cada vez mais agudo e humano.

Morador de rua improvisa uma cabana com publicidade política (Foto de Tiago Queiroz/AE)

Morador de rua improvisa uma cabana com publicidade política (Foto de Tiago Queiroz/AE)

“É frequente eu estar no carro, entre uma pauta e outra, e ver uma cena que me chama a atenção. Sempre que possível peço ao motorista para voltar, faço fotos e levanto informações que podem se desdobrar em novas pautas”, conta. Quando dá certo, não raro a foto de Tiago estampa a capa do Estadão no dia seguinte. Foi assim, por exemplo, com uma imagem capturada por ele antes das últimas eleições municipais. A foto mostra um morador de rua abrigado no meio de duas placas de propaganda política, dispostas como se fossem uma minúscula cabana. A propaganda de candidatos que gastaram milhões e que, dali a pouco, iria virar mais lixo e entulho nas ruas da cidade, servindo de “casa” a quem não tem nada e sonha com uma vida mais digna. Pungente e ao mesmo tempo crítica, a imagem sintetiza a sensibilidade do olhar do fotógrafo.

Durante manifestação pela saída do presidente haitiano René Préval, em 2010, houve confronto com a polícia (Foto de Tiago Queiroz/AE)

Durante manifestação pela saída do presidente haitiano René Préval, em 2010, houve confronto com a polícia (Foto de Tiago Queiroz/AE)

Não que ele não goste do hard news, como são chamadas as coberturas mais densas e complexas no jornalismo – em 2010, inclusive, foi enviado ao Haiti no período pós-terremoto naquele país –, mas Tiago se considera antes de mais nada um cronista. Nos últimos tempos, ele vem exercitando também seu talento de forma completa, escrevendo matérias que, como suas fotos, são um registro atento do cotidiano da metrópole, com suas mazelas e belezas que tantas vezes precisam ser desvendadas.

Três coisas que eu aprendi

  • “A técnica é essencial ao bom fotógrafo, mas mais essencial ainda é o olhar, é mantê-lo aberto e sensível às coisas, às cenas que se desenrolam ao nosso redor a todo momento. Não deixe uma história passar, pois ela não se repete.”
  • “Aprenda a ouvir mais do que falar. Ouça o que as pessoas têm a dizer e respeite-as. Isso é importante não apenas para que você faça bem o seu trabalho, mas também em sua evolução pessoal.”
  • “Seja persistente. No meu caso, por exemplo, as pessoas não estão necessariamente na redação de braços abertos esperando que eu chegue com as minhas sugestões de pauta. O normal é que eu tenha de insistir, ‘vendê-las’ para poder produzir e publicar o material.”