Home > Carreiras > Engenharia Elétrica > Demi Getschko, o pai da internet brasileira

Demi Getschko, o pai da internet brasileira

por Marcello Costa
fotos: Rogério Montenegro/arquivo pessoal

Você já chegou a pensar em tudo o que aconteceu na história da tecnologia no Brasil para que você estivesse aqui e agora em um computador, tablet ou telefone lendo esta reportagem no VAGAS Profissões, conversando com outras pessoas em uma rede social, como o Twitter, em outra janela, fazendo compras em lojas online ou mesmo vendo vídeos no Youtube, lendo reportagens em sites ou até procurando material para embasar uma pesquisa escolar?

É bem provável que a maioria das pessoas nunca tenha pensado nos obstáculos que foram vencidos para que, hoje, a Web seja uma realidade no País. Mas há uma pessoa em especial que pode contar em detalhes todas as fases desse processo: o engenheiro Demi Getschko, que em abril foi homenageado pela Internet Society (ISOC), em Hong Kong, sendo convidado a adentrar o Hall da Fama da Internet na categoria “Conectores Globais”. Getschko estava lá quando a internet começou no Brasil – na verdade, um pouco antes.

Demi entrou na “gloriosa turma de 1975” da Poli, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), para estudar Engenharia Elétrica. Numa aula para calouros, uma frase de um professor ficou marcada: “Não há grande diferença entre ser engenheiro naval, mecânico, civil, ou elétrico. A mentalidade é mais ou menos a mesma”. Tendo isso em mente, Getschko optou por se aproximar da cadeira de Telecomunicações, mas quando surgiu em sala de aula a oportunidade de um estágio no Centro de Computação Eletrônica (CCE) da USP, ele não pensou duas vezes.

Primeira turma de estagiários
“Direcionei-me primeiro para Eletricidade, depois Eletrônica, e, dentro de Eletrônica, Telecomunicações, porque eu acreditava que era uma área que valia a pena ouvir os mestres”, relembra. No CCE, ele ficou animado com o que conheceu, e seu estudo bifurcou: “Fui da primeira turma de estagiários de computação formada em 1972. Ou seja, fazia faculdade na área de telecomunicações e trabalhava mais próximo da área digital.”

A área digital seduziu tanto o engenheiro que, depois de formado, ele decidiu continuar no CCE como analista, ao invés de ir atrás de uma grande empresa com seu diploma. Os estudos, no entanto, não pararam. “No mestrado (concluído em 1980), optei por estudar processamento de imagens, que já era algo digital. Já meu doutorado (finalizado em 1989) foi sobre Supercomputação, definitivamente mais digital. Apesar da minha formação ter sido em telecomunicações, a minha especialização para doutorado foi indo mais para o lado digital, e terminando totalmente digital”, ele analisa.

Aproximando-se da internet
Um novo emprego surgiu em 1985, quando o professor Oscar Sala o contratou para tocar um projeto na FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo), envolvendo automação de processos de bolsas e auxílios. No ano seguinte, professores pesquisadores da USP, Unicamp e Unesp, animados com a experiência da internet que haviam presenciado em suas viagens para o exterior, começaram a analisar a viabilidade da conexão de internet para cada universidade, e, após uma conversa, ficou decidido que a FAPESP centralizaria essa rede, e lá foi Getschko participar do esforço da implantação de redes no País e ser um dos responsáveis pela primeira conexão TCP/IP brasileira, em 1991.

Lá se vão mais de 20 anos, e muita coisa mudou daquela primeira conexão coordenada por Getschko e os likes que você faz em uma página do Facebook hoje. “A internet começou na área acadêmica e provavelmente ela continuaria na área acadêmica se não tivessem surgido algumas aplicações revolucionárias”, observa o engenheiro. Uma das principais aplicações, segundo ele, foi a criação da Web, por Tim Berners-Lee, em 1989, e popularizada nos anos seguintes.

“O surgimento da Web fez com que muita gente se interessasse em participar da rede (que até então era acadêmica), porque você podia colocar a sua própria informação, montar o seu próprio sítio, dizer o que você achava e o que deixava de achar do que você quisesse, coisas que não havia na época dos acadêmicos, e que alguns deles até torciam o nariz, porque não era lá muito… nobre”, ele observa. “O pessoal de outras áreas, como Humanas, achou muito bom. E evidente que era uma coisa muito boa e que se transformou numa revolução”, define.

demi-hall-of-fame2

No Hall da Fama
A nomeação da Internet Society deixou o engenheiro muito feliz, mas ele se apressa em dizer que a internet é uma coisa coletiva. “Não existe um cara que faz uma coisa especifica nessa categoria (de Conectores Globais), sozinho.” Ele explica que o Hall da Fama da Internet é formado por três categorias: Pioneiros (“Os pesos pesados estão nela”, diz Getschko, citando Vint Cerf, Steve Crocker e Louis Pouzin, “as pessoas que escreveram os protocolos”), Inovadores (de pessoas que trabalham sobre as criações do primeiro grupo. Tim Berners está nessa categoria, também repleta de pesos pesados).

“A terceira, que é uma categoria um pouco mais cosmopolita, se dedica a reconhecer pessoas que fizeram conexões entre grandes comunidades, levando-as a se integrar na rede”, explica o professor, que também já deu aula na Poli. “É nessa categoria que estou e é chamada de Global Connectors. Acho importante dizer que não é na mesma categoria que o Tim Berners-Lee e nem a do Vint Cerf. Estou numa categoria de conectores que tem uma maior diversidade geográfica”, observa.

Para exemplificar a diversidade geográfica, ele lembra que já tivemos uma latina sendo indicada em 2013 (o prêmio existe desde 2012 e está em sua terceira edição). “No ano passado, a professora Ida Holz, da Universidade de Montevideu, ganhou esse prêmio. No primeiro ano, ninguém da América Latina ganhou, no segundo ganhou a Ida Holz e neste ano ganhei eu. Acho que isso é bom porque a iniciativa brasileira foi muito bem sucedida e me sinto muito orgulhoso de ter participado dela. Evidente que não é correto imaginar que isso se deva a uma pessoa especifica, porque foi uma coleção de esforços, mas é extremamente gratificante e muito honroso estar nesse Hall of Fame”, diz.

Marco CivilDemi_01 ok
Um dos nomes envolvidos com o projeto do Marco Civil da Internet, aprovado na Câmara dos Deputados em março deste ano e no Senado Federal no mês seguinte, Getschko não acredita em prognósticos sobre o futuro da internet no País, para onde ela irá ou deixará de ir, mas é enfático numa opinião: “Nós gostamos do jeito que a internet é, e queremos preservá-la”.

Para ele, é importante manter as características de inovação intrínsecas a rede. “A internet está aberta para quem quiser tentar qualquer coisa. É sua característica básica, e é nossa responsabilidade garantir que a rede continue permitindo a inovação, permitindo que se uma pessoa tem uma ideia, ela pode
colocá-la na rede. Se deu certo, deu; se não deu certo, azar, mas ele tem que fazer isso sem precisar de uma licença para criar um sítio, criar um serviço”, acredita.

“A rede é algo que mudou o mundo, mudou o jeito das coisas funcionarem, diminuiu fronteiras”, define. “Ela mudou modelos econômicos importantes, e certas coisas que eram razoáveis no   passado deixam de ser razoáveis hoje em dia. Os modelos de negócio estão mudando e os espertos estão enxergando isso. Os que querem se manter encastelados no modelo anterior, correm risco. É a vida. Eles devem saber o que estão fazendo”, acredita o engenheiro, que é bastante positivo quanto ao mundo atual: “Vivemos um tempo muito interessante”.