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Aos 81 anos, engenheiro ainda é referência

Por Nilson Galvão
Fotos de Sora Maia

Nas paredes da sala de trabalho do engenheiro Petrônio Rosa há fotos emolduradas de obras que fazem parte da história do desenvolvimento do país, como as barragens do Guandu, no Rio de Janeiro, e Mimoso, no Mato Grosso do Sul; o Cais do Paranaguá, no Paraná, ou os terminais do baiano Porto de Aratu.  Sobre os armários, estão peças antigas: um nível topográfico, uma máquina de calcular Facit, o estojo de desenho que ganhou do pai como presente de formatura.  Cada imagem, cada objeto, conta um pouco da trajetória profissional deste engenheiro de 81 anos, ainda na ativa e com sabedoria de sobra para transmitir às novas gerações.

Os empreendimentos das fotos são apenas alguns dos projetos nos quais ele atuou ao longo de 56 anos de trabalho. Hoje, já afastado dos canteiros de obras, segue como diretor geral e sócio minoritário da Belov Engenharia, uma empresa baiana especializada na construção de obras civis portuárias e subaquáticas. As conquistas profissionais são muitas, mas seu Petrônio é discreto ao comentá-las. Aos engenheiros em formação ou início de carreira, seus conselhos valem como lições de vida.

“Acho que mais importante do que ter uma grande inteligência é saber conviver: não adianta nada você ter uma ideia brilhante se não souber convencer as pessoas, se não aprender a ouvir antes de falar”

Para justificar a importância desta habilidade relacional no dia a dia de uma profissão que requer competências técnicas tão especializadas, seu Petrônio lembra a máxima de um ex-chefe, diretor da antiga companhia de mineração e metalurgia Cobrasil: “contratar engenheiro é fácil, difícil é contratar engenheiro diplomata e é disso que a gente mais precisa em um canteiro de obras”.

Além da diplomacia, ele também ressalta a importância de reconhecer e valorizar as equipes, “extraindo o melhor de cada um” e de sempre cultivar a modéstia. “Numa obra, as soluções para os problemas podem partir das pessoas mais humildes, às vezes a gente aprende muito com um analfabeto”, revela. Não por acaso, vários operários e outros trabalhadores, que atuaram com ele em canteiros de obras, referem-se ao mestre como um “pai”.

Sua filosofia de vida também rendeu ao engenheiro vínculos de amizade que resultaram em oportunidades profissionais. Um exemplo é a própria parceria com Aleixo Belov, da Belov Engenharia. Os dois são amigos desde os anos 70, quando Petrônio ofereceu ao então jovem profissional a oportunidade de atuar como engenheiro auxiliar nas obras do Porto de Aratu. Cerca de vinte anos depois, foi a vez de Aleixo retribuir o gesto, convidando-o para a sociedade.

Hoje, é seu Petrônio quem toca muitas questões do dia a dia da empresa, principalmente quando Aleixo Belov, que também é velejador, se ausenta para realizar as viagens ao redor do mundo que o tornaram famoso. Apesar da idade avançada, o mestre nem pensa em se afastar do trabalho. Às 6 horas da manhã, é ele o primeiro a chegar, com as chaves que abrem os escritórios. Além da simpatia e da disposição para o trabalho, seu Petrônio também é conhecido pela boa memória. Sempre que os funcionários têm dúvidas sobre o encaminhamento de um problema ou uma informação qualquer sobre a empresa, acionam o seu ramal, o que já lhe valeu até um apelido curioso: call center.

Inteligência emocional

Petronio

A filosofia de trabalho de Seu Petrônio parece ter muito em comum com teorias modernas em gestão de RH, que enfatizam, entre outras questões, a importância do cultivo de uma “inteligência emocional” no trabalho.   Mas para entender melhor as origens das ideias deste engenheiro, é preciso retornar um pouco na sua trajetória.

Gaúcho, filho de um militar e de uma jovem filha de espanhóis, ele revelou ainda na infância facilidade para matemática (ou aritmética, como se dizia na época). Também gostava da ideia, conta ele, de “realizar coisas concretas, que fossem visíveis”. A opção pela Engenharia se tornou óbvia, num tempo em que não eram muitas as profissões à disposição dos jovens universitários.

Formou-se na Faculdade Nacional de Engenharia, no Rio de Janeiro, mas só realizou estágio depois de concluir o curso. Isto porque, em paralelo às aulas, frequentava ativamente o Movimento de Ação Católica, um grupo religioso com forte atuação política. “Nesta época, me interessei por Psicologia e aprendi muitos dos princípios que coloquei em prática como engenheiro, ao trabalhar em grupos e liderar equipes”, revela.