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Engenheiro agrônomo zela por gramados de futebol

por Guss de Lucca
fotos por Ailton de Oliveira/arquivo pessoal

O espetáculo do futebol depende de muitas variáveis para acontecer. Enquanto jogadores, técnicos e árbitros respondem pelo fator humano, um número enorme de outros profissionais se responsabiliza para que tudo ocorra da melhor maneira possível. E um dos mais importantes ao se tratar da infraestrutura dos estádios é o engenheiro agrônomo – afinal, não existe jogo sem gramado.

Mais conhecida pela atuação em agronegócios, a engenharia agronômica também responde pela qualidade da grama em que atletas de diversas modalidades pisam, como golfe, rugby e, é claro, futebol. Um mercado que, de acordo com o agrônomo argentino Daniel Tapia, cresceu muito na última década.

“Quando o grupo com quem trabalho chegou para prestar consultoria no Brasil, em 1985, não havia agrônomos especializados em gramados esportivos. Hoje em cada esquina tem um cara querendo fazer um campo pra Copa do Mundo”, explica ele, que, por ser o único solteiro da empresa, acabou se mudando de vez pro Brasil há 23 anos.

Atuando no setor há quatro décadas, Tapia conhece de perto estádios brasileiros famosos como o Mineirão, em Belo Horizonte, e o Morumbi, em São Paulo, além de uma gama enorme de centros de treinamento. Com tanto tempo de atividade ele consegue definir com precisão os fatores que colaboram para um gramado de sucesso.

“A primeira coisa é saber escolher a base, o solo onde a grama será plantada, e isso depende de fatores como clima, que no Brasil é diverso. Ter uma boa drenagem é fundamental, afinal, não dá pra jogar num campo encharcado. Depois, é claro, a grama em si, que deve respeitar as características do local escolhido”, explica Tapia, que atualmente trabalha como consultor do gramado do Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, estádio do São Paulo Futebol Clube.

Granja Comary
Engana-se quem pensa que o trabalho do engenheiro agrônomo para por aí. É preciso cuidar para que as podas sejam feitas adequadamente e de acordo com a necessidade do cliente. “Em geral a grama é cortada três vezes por semana, algo entre 18 e 23 milímetros de poda, para que a bola deslize mais rápida. Na Granja Comary, local de concentração da seleção brasileira, a CBF não gosta do gramado fofo, por exemplo”.

Além dos jogos, outros eventos exigem um cuidado maior com o gramado, caso das apresentações musicais, que Tapia conhece tão bem. “Se o show é curto não há muito que fazer. Mas quando é um evento grande, como o do U2, no Morumbi, cuja produção usa o espaço por 15 dias, com três concertos seguidos, o gramado sente, pois pela cobertura passa uísque, cerveja e até xixi. Aí não dá pra marcar um jogo na sequência, pois a grama precisa de pelo menos 20 dias para se recuperar”, conta o agrônomo.

Plantando de olho na Copa
Responsável pelo gramado de diversos estádios da Copa do Mundo do Brasil, como a Arena Corinthians (foto abaixo), em São Paulo, a Arena das Dunas, em Natal, e a Arena Pantanal, em Cuiabá, o engenheiro agrônomo Fábio Câmara conhece de perto a rotina de eventos esportivos de peso, como a Copa América.

Gramado Arena Corinthians

 

Câmara afirma que essa é a primeira Copa que a FIFA, famosa pelo alto padrão de exigência, fez recomendações voltadas especificamente para a grama. “Até a Copa da África do Sul não havia um padrão. Por isso eles tiveram muitos problemas, como precisar recuperar campos faltando apenas dois meses para a competição. Depois dessa experiência a FIFA começou a padronizar os gramados da mesma forma que faz com os estádios, afinal, de que adianta um estádio bacana e um gramado péssimo? Você olha por cinco minutos para o estádio e durante 90 para o gramado”.

De acordo com o engenheiro, para cada clima há uma recomendação diferente, com especificações voltadas para cada cidade-sede. No caso da Arena Corinthians, popularmente chamada de Itaquerão, a grama plantada fugiu do normalmente utilizado. “Nossas gramas são de clima tropical, mas no estádio do Corinthians foi plantada grama de clima europeu. Ela pode ser cultivada normalmente durante o inverno de regiões como a Sudeste, mas no verão ela não aguenta, morre inteira. Por isso essa arena terá um sistema inédito de resfriamento”.

Mas a novidade não para por aí. O gramado da Arena Corinthians, programada para sediar a abertura da Copa do Mundo, foi reforçado com fibra sintética, aumentando sua resistência. “A grama fica mais ancorada, com a raiz mais presa ao solo do que a de um estádio padrão. Com isso ela deve aguentar mais o pisoteio.”

Interessados em trabalhar na área devem ir além do ensinado na universidade de engenharia agronômica. “É um ramo que tem crescido, mas ainda é pequeno se comparado ao agronegócio. O profissional precisa se dedicar bastante e correr atrás de estágios e material de pesquisa, que é todo em inglês”. Gostar de futebol, de acordo com Câmara, também ajuda.

Fábio Câmara Engenheiro Agrônomo