Home > Carreiras > Enfermagem > Trajetória de uma enfermeira bem-sucedida

Trajetória de uma enfermeira bem-sucedida

Por Alan Santos
Foto de Rogério Montenegro

O lobo exerce certo fascínio no homem, pois ao contrário do cão, resistiu à domesticação. Essa rebeldia traz espanto, mas também admiração. Mesmo efeito causado pela bela lenda que responsabiliza uma loba por salvar as vidas dos futuros fundadores de Roma.

Ana Maria Lima Lobo é enfermeira graduada pela USP, bacharel e mestre em Direito pela PUC-SP. A curiosidade e a inquietação inerentes a qualquer criança pareciam ter uma importância ainda maior para ela, desde muito jovem. Inevitavelmente, as capacidades de se indignar com certas situações que a vida apresentava e de se solidarizar com as outras pessoas foram se desenvolvendo e marcando sua trajetória.

A paulistana de 52 anos recorda um momento curioso, ocorrido na infância, que já demonstrava a coragem de fugir do óbvio e o senso de justiça apurado. Em uma aula de religião, a professora discursava sobre o quão perigoso poderia ser o chamado “príncipe das trevas”. Em meio às outras crianças, horrorizadas com o personagem, Ana se questionava e pensava ser aquele o momento certo para esclarecer a dúvida. Disse que não entendia por que as pessoas tinham tanta raiva do anjo renegado.

Ela sentia até pena, por achar que a punição não era justa. Se ele havia feito algo errado, bastava que Deus desse uma bronca, o deixasse de castigo, fazendo-o entender seu erro e, em seguida, o perdoasse, como faz com todo mundo. “Mas Deus o expulsou do céu imediatamente, coitado!”, afirmou a menina. Claro que a professora não recebeu bem essas constatações, até porque não teria respostas para elas.

Na adolescência, ela queria ser bancária. “Eu achava chique a pessoa dizer que trabalhava em banco. O trabalho em si eu nem entendia a fundo”. Sua mola propulsora foi mesmo a paixão pelo conhecimento. Assim, os estudos se tornaram seu passaporte para outros mundos.

No final do ensino médio recebeu um prêmio que não esperava. Por ter as melhores notas em língua portuguesa, ganhou uma bolsa de estudos em um conceituado curso pré- vestibular. Ela ficou feliz, mas não tinha uma ideia clara de que profissão gostaria de seguir, o que dificultou um pouco a escolha da turma em que iria se matricular. Optou, por fim, pela turma de Biológicas. A determinação ao assumir o compromisso levou a uma convivência próxima com as disciplinas do curso. Ali, um desejo foi despertado: prestar vestibular para Medicina.

E assim foi. Mas Ana não passou. Faltou pouco. Sabia que se aparasse algumas arestas, entraria no ano seguinte. Mas a intuição ou a sábia rebeldia a puxavam para outro caminho. Ela não queria dedicar mais um ano da vida e ter a sensação de tempo perdido no final dele. A bolsa de estudos estava encerrada e a solução foi trabalhar dentro do próprio cursinho para custear os estudos.

“Nessa nova tentativa, eu teria que acertar o alvo. Não poderia continuar no cursinho por um terceiro ano. Prestei Enfermagem na USP e passei em primeiro lugar”

Apesar da pouca idade, Ana percebeu ali que algumas vezes as decisões que tomamos na vida são uma mistura dos nossos sonhos com a negociação que fazemos com o destino.

Aprendizado além dos livros

A universidade trouxe a confirmação da vocação para cuidar do semelhante. A estudante concluiu a graduação em 1985. Em vinte e oito anos, atuou em importantes instituições, como Hospital das Clínicas (FM-USP), Hospital Universitário (HU-USP), Clínica de Cirurgia do Quadril, Hospital Alvorada e Santa Casa de São Paulo. Quase sempre associou às suas atividades a prática de estudos para concursos públicos, sendo muitas vezes bem sucedida.

Entre os episódios marcantes na carreira de enfermeira, ela destaca a experiência na Unidade de Transplante de Fígado do HC. No início de suas atividades, acompanhou passo a passo, a recuperação total de um transplantado e presenciou, pela primeira vez, a perda de outro paciente, também transplantado. Além do aspecto técnico, a enfermeira sentia que o trabalho com as pessoas tinha muito mais a agregar. Ela relembra uma situação vivida enquanto atuava no Programa de Saúde da Família (PSF), na periferia da zona leste de São Paulo.

Ao fazer uma visita domiciliar, acompanhada de um médico e uma agente de saúde, ela se deparou com uma situação delicada. A dona da casa cuidava sozinha de um filho deficiente físico e mental e de cinco netos pequenos. Ana, com todo o cuidado, questionou porque o neto mais novo dormia no chão junto com o cachorro e alertou que, daquela forma, as lesões que a criança trazia na pele nunca iriam ser curadas. A avó, então, bastante alterada após ouvir as orientações, ensinou que “pobre dorme com cachorro porque o animal aquece”, solução fundamental quando não se tem cobertor.

O uivo

Presenciar episódios tão fortes, foi aos poucos despertando na enfermeira, a vontade de fazer mais. Bem colocada no mercado de trabalho e com um filho adolescente para cuidar, talvez fosse a hora de “sossegar”. Subvertendo mais uma vez o que seria o caminho natural, a enfermeira decidiu voltar aos estudos. Fez seis meses de curso pré-vestibular noturno. Cursou em seguida Direito na PUC. Atuou como monitora em algumas aulas, formando-se em 2003.

O estudo que lhe deu, em 2006, o título de mestre em Filosofia do Direito com concentração em Direito das Relações Sociais, tem como título “Os maus tratos na infância e adolescência – Aspectos Jurídicos”. Na dedicatória da dissertação, Ana faz menção “àqueles que não perderam a capacidade de indignar-se” e aconselha: “as dificuldades que hoje parecem intransponíveis, amanhã serão degraus já galgados”

Na vida pessoal, o olhar atento ao outro também se faz presente. Ana é o tipo de pessoa que, ao ouvir o problema de um familiar ou amigo, não senta com ele e chora, mas busca alternativas usando sua sensibilidade e o grande poder de análise, como faria para si mesma. É a mescla entre razão e emoção, talvez num coração muito grade e altamente estratégico.

Atualmente, ela concilia as duas áreas do conhecimento como servidora do Tribunal de Justiça (TJSP), na secretaria da área da saúde. Também exerce o magistério, ministrando aulas de Direito em universidades, sendo especialista em Direito Público, Direito Constitucional e Direitos Humanos.

As dicas

O que ela pensa ser um bom exercício para quem busca realização é correr atrás do autoconhecimento. “Analise-se: ambientes abertos ou fechados? Trabalhar com pessoas ou com coisas? Preste atenção em você, nos seus dons, no que te causa satisfação naturalmente. Procure respeitar isso quando for escolher uma carreira ou optar por uma vaga de emprego. Não é só o campo profissional que está em jogo, sua vida como um todo é influenciada. Por isso, fazer o que se gosta é importante”.

Ana complementa que “desejar é apenas o início. Transforme o sonho num plano e siga em direção à realização. Vá! Monte estratégias, supere os medos, converse sempre consigo mesmo e vá! Não desista, ainda que “aqui” ou “ali”, algo dê errado. Segure-se na imagem do sonho se realizando e continue a jornada. A gente só se arrepende daquilo que não faz”.

Quando questionada sobre a origem da força que a move, Ana diz não saber se é de fato uma força. “Não sei se há algum mistério. Eu apenas tenho um plano e decido segui-lo. Sempre tive um plano. Ele, às vezes muda de acordo com outros fatores, mas continua sendo um plano”. A loba segue então para casa, afim de se reenergizar e escrever mais um capítulo da sua história no dia seguinte.