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Preparação e paixão: ingredientes do bom árbitro

por Guss de Lucca
fotos: arquivo pessoal

Ao entrar numa partida de futebol os jogadores de cada um dos times sabem que dependendo do resultado podem sair de campo como heróis ou vilões. Agora o que dizer do árbitro? Não importa quem ganhe o jogo, é quase certo que o lado perdedor colocará sobre seus ombros parte ou toda a culpa pela derrota. Isso leva a uma questão interessante: por que alguém resolve ser juiz de futebol?

Há 15 anos trabalhando na Federação Paulista de Futebol, o árbitro Flávio Rodrigues Guerra começou cedo na profissão. “Eu já apitava jogos de futebol amador em Penápolis, minha cidade natal, desde a adolescência. Quando completei 18 anos entrei para a faculdade de educação física, que fiz praticamente ao mesmo tempo em que o curso de árbitros.”

Apesar do tempo de profissão e da experiência, Guerra não trabalha exclusivamente como árbitro – realidade comum a quase toda a categoria. Durante a semana ele exerce a função de professor de educação física e diretor de unidade da Fundação Casa. “Hoje infelizmente não dá pra viver de arbitragem. Precisamos ter outro trabalho pra poder pagar as contas. Isso acontece porque você ganha por jogo e agora, com a questão do sorteio de árbitros por partidas, não dá para prever quantos jogos você vai apitar”, explica.

Árbitro Flávio Rodrigues Guerra

 

Entre as possíveis mudanças nas regras que poderiam melhorar o papel da arbitragem, Guerra destaca o uso de tecnologia, como o recurso do telão, para decidir lances polêmicos. “Se houvesse esse recurso os erros dos jogadores e dos técnicos apareceriam mais. Hoje a desculpa para a perda de um título cai na arbitragem.”

Conquistando espaço entre os homens
A história da ex-atleta Adeli Mara Monteiro não é diferente de outros árbitros. Atuando há dez anos nos campos, a também professora de educação física parou de jogar e passou a trabalhar como juíza de futebol assim que terminou o curso de um ano e meio da Federação Paulista.

Juíza de Futebol Adeli Mara Monteiro

 

Como muitos árbitros, ela divide a paixão pelos gramados com a função de instrutora de academia, acessando semanalmente o site da Federação para saber para quais jogos está escalada. “Por ali você vê onde será a partida e com qual a equipe vai trabalhar. Se não confirmar até sexta-feira eles te substituem”, explica Adeli.

O preconceito por parte de torcedores é uma constante no trabalho, ela diz, principalmente por causa da visão machista que acredita que a arbitragem deva ser uma profissão exclusivamente masculina. “Dizem que a gente não sabe o que está fazendo. Mas isso vem mudando. Hoje esse comportamento é bem menor que há dez anos. A mulher foi ganhando espaço e já é vista com outros olhos.”

Para os jovens que pensam em entrar na profissão instigados pelo que assistem na televisão, Adeli dá uma dica. “Acho importante pra quem quer começar acompanhar os campeonatos menores, a várzea, os amadores… Longe do profissionalismo da Federação a pessoa pode decidir com clareza se é isso que ela quer”, afirma.

O árbitro das Copas
Carlos Eugênio Simon é o árbitro brasileiro que mais apitou partidas em Copas do Mundo. Em seu currículo estão confrontos entre seleções de peso como México x Itália (2002), Alemanha x Suécia (2006) e Inglaterra X EUA (2010).

Árbitro Carlos Alberto Simon

 

Formado em Jornalismo, Simon utiliza sua vasta experiência de 27 anos de arbitragem em palestras e como comentarista do canal Fox Sports Brasil. De acordo com ele, as principais características de um bom árbitro são a paixão pelo esporte e a preparação física. “É preciso estar preparado para qualquer jogo, estudando partidas, treinando em academias, correndo… e é fundamental ser apaixonado por futebol.”

Para ele a arbitragem no Brasil deveria ser encarada como uma profissão normal, com os juízes de futebol recebendo salários. “Se pudesse eu acabaria com o sorteio e profissionalizava a arbitragem, permitindo que o árbitro vivesse do seu trabalho e não precisasse se preocupar com outras funções”, diz, taxativo.

Focando na Copa, Simon esclarece que a preparação para o torneio da FIFA é diária. “Um árbitro escalado para um evento desse porte, onde estão os melhores técnicos e jogadores do mundo, precisa estar bem condicionado física e psicologicamente.”

A musa dos campos
Diferentemente de outros árbitros, Ana Paula de Oliveira nunca gostou muito de futebol. “Eu brincava de bola com meu irmão porque ele brincava de casinha comigo. Mas preferia jogar vôlei, fazer atletismo, kung fu…”, conta rindo. O que levou a jovem aos campos foi a influência do pai, que era árbitro. “Comecei a tomar gosto assistindo aos jogos da Copa de 1994 com ele”, comenta.

Em 20 anos de carreira Ana Paula colecionou momentos emocionantes, como uma disputa entre Grêmio e Internacional em que foi aplaudida pelas duas torcidas – tudo, é claro, ao custo de muito esforço e dedicação. “Eu trabalhava em escritório, estudava e usava o pouco tempo livre pra treinar e me preparar para os jogos. Antes de cada partida eu estudava os times, sabia qual era o jogador mais veloz, o mais lento. Como assistente eu me preocupava em saber se a zaga era lenta e o ataque rápido, por exemplo, pois isso ajudava a prever se haveria um número maior de impedimentos. Muitos dos meus acertos vinham desse estudo e dessa preparação do jogo”, conta.

Ana Paula de Oliveira

 

Capa da revista Playboy, em 2008, a ex-auxiliar de arbitragem agora atua como instrutora e dá o recado: “Ser árbitro é um sacerdócio: você entra ofendido e sai apedrejado. Mas é apaixonante. Barreiras existirão. E se eu não consegui chegar a Copa, sei que novas garotas podem. Mas é preciso foco, pois não é fácil. O treinamento é pesado e a cobrança é dura”.