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Educação física: a vida depois de um acidente

Por Lucia Helena Corrêa

Aos 28 anos, Rodrigo José Corrêa Nunes sofreu um grave acidente de moto. Verdadeira tragédia, no caso de alguém como ele – personal trainer, profissional especialista na prescrição de exercícios personalizados, professor das mais bem frequentadas academias de ginástica do Rio de Janeiro, técnico e preparador físico de desportistas de futebol, vôlei, lutas, dança, natação, corrida, triatlo e surfe.

Gravemente ferido, precisou resistir a quatro paradas cardíacas e a uma série dolorosa de infecções, enxertos e implantes, num total de 20 cirurgias no período de 13 meses. As múltiplas lesões – perna, ombro e braço direitos – trouxeram as sequelas da monoplegia (paralisia muscular de um dos membros) e encurtamento do fêmur da perna atingida em 8 cm.

Mas Rodrigo fez muito mais do que sobreviver. Com pleno conhecimento de causa, sozinho, submeteu-se a intensa e disciplinada rotina de exercícios fisioterápicos, por ele mesmo aplicados. Quinze meses depois, estava de volta às academias, festejado pelos mais de cem alunos e empregadores. Se, antes, eles já o admiravam pela qualidade do trabalho que faz, hoje, reconhecem nele exemplo de superação emocionante.

Depois de dois anos, Rodrigo retomou o atletismo, a natação, as maratonas, os triatlos de curta distância e as travessias aquáticas, entre outras modalidades esportivas. Inclusive o ciclismo, graças ao uso de tênis e bike adaptados à perna direita mais curta.

Agora, a mão direita, antes sem movimento, já consegue levantar pesos e funcionar nas tarefas mais comuns do dia a dia, desde abrir latas e garrafas. Merecido troféu: destro, aprendeu a usar a mão esquerda, até mesmo para escrever. Além disso, somou à extensa lista de atividades profissionais o cargo de sócio-gerente na cantina do condomínio onde mora, na Barra da Tijuca, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro.

“Tudo foi tão forte, em dor e sofrimento, que minha parte racional ficou paralisada. De maneira geral, as pessoas procuram sempre uma justificativa para tragédias como essa, utilizando, para isso, a parte racional do cérebro, perguntando-se o que fizeram de errado. Em nenhum momento eu questionei ‘por que comigo?’ ou ‘como isso foi acontecer?’. Ante a virtual falta de lembrança do acidente, simplesmente admiti que aconteceu, avaliando tudo com a parte acessível do cérebro: o instinto de sobrevivência, tão primitivo e importante. Isso me conduziu à recuperação.”

Depois do acidente, Rodrigo, pai de Maria Eduarda, de 8 anos, viu nascer o segundo filho. Gabriel veio ao mundo no dia em que o acidente completou 4 anos. “Tem presente melhor que esse?”, pergunta.

Rodrigo tem licenciatura plena em Educação Física pelo Centro Universitário da Cidade e pós-graduação em Treinamento Desportivo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No trabalho de conclusão de curso de graduação, muito antes de viver experiência tão dolorosa, ele usou como epígrafe a frase do poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo e ator francês Jean Maurice Eugène Clément Cocteau:

“Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.”

Dicas de carreira de Rodrigo

  • Ame a vida, as pessoas que o cercam e torcem por você. Eu amo tudo isso: meu trabalho, meus alunos…
  • Seja forte, resistente, corajoso, paciente e determinado.
  • Olhe sempre para frente e mude o que precisar mudar na sua vida.
  • Não tenha medo de reivindicar seu lugar no mercado de trabalho. O mercado sabe a quem excluir, e não é, definitivamente, a pessoa portadora de deficiência física.