Home > Carreiras > Educação Física > Antigo olheiro, observador busca a renovação do time

Antigo olheiro, observador busca a renovação do time

Profissional procura nas categorias de base por jogadores para os clubes

por Guss de Lucca
fotos: arquivo pessoal

Uma das profissões mais características do futebol é a de olheiro. Desgastado, o termo foi substituído por observador técnico, mas consiste na mesma tarefa: buscar nas categorias de base por jogadores que possam, no futuro ou mesmo imediatamente, renovar o elenco dos clubes.

Edvaldo Marques, mais conhecido como “Palinha”, atua como observador técnico no Palmeiras. Para ele um bom olheiro, antes de tudo, precisa conhecer o nível do grupo que você tem no clube. “É em cima disso que buscamos por características marcantes em um garoto talentoso. Cabe ao observador prestar muita atenção no período em que estiver avaliando um atleta. Todo detalhe é importante.”

Apesar da procura natural de atletas pelos clubes, o trabalho de olheiro ainda é um dos grandes responsáveis pela adequação de novos talentos dentro das equipes de alto rendimento. “O Palmeiras vem evoluindo consideravelmente no trabalho de formação de atletas e entende que a captação ocupa uma função importante nesse processo. Hoje, não estamos mais limitados a esperar que o atleta venha bater na porta. Estamos indo em busca dele”, explica.

Biotipo, faixa etária, atitude
Muitas vezes o clube direciona o observador técnico, pedindo a priorização de jogadores em determinada faixa etária ou posição. “As solicitações são feitas diretamente pelo treinador da categoria. No mais, procuramos atletas que apresentem o perfil que buscamos para o Palmeiras. Observamos principalmente a capacidade técnica do garoto e alguns aspectos secundários como biotipo, faixa etária, atitude, entre outros.”

fm_palhinha-base (5)

Mas se engana quem pensa que um garoto bem avaliado por um observador técnico já está dentro de um clube famoso. “Aos garotos selecionados ainda há outra etapa antes da aprovação final: sempre é agendado uma data para que permaneça de uma a duas semanas em observação no clube”. É nesse período que tudo é decidido.

Para os interessados em entrar nesse mercado,Palinha coloca perseverança, autocrítica, preparação e muita determinação como fatores determinantes. “O mercado é muito concorrido e muitos desistem com facilidade.”

O captador do Norte
Diferentemente de Palinha, que é funcionário do Palmeiras e tem salário fixo, o observador técnico Paulo Nascimento, vulgo “captador do Norte”, trabalha há 12 anos como profissional liberal – sem vínculo com nenhum clube, mas em contato direto com muitos, como Fluminense, Vasco e o próprio Palmeiras.

“Comecei por contra própria. Tinha vontade de jogar e não tive oportunidade. Mas logo descobri o dom para caçar talentos e investi nisso”, explica o olheiro, afirmando que no início a profissão, atualmente respeitada, não era bem vista por todos.

Nascido em Manaus, ele ganhou o apelido de “captador do Norte” por investir na busca de atletas fora da região Sudeste, onde estão os principais times do País. “O norte é outro Brasil. São apaixonados por futebol, mas não têm muito apoio nem investimento. E a distância torna tudo mais complicado”.

Viagens para outros países
Inerentes ao trabalho, as viagens pelo interior dos estados e até para outros países consomem grande parte do serviço de Nascimento. “Já estive na Venezuela, no Equador, na Colômbia… Lugares tão distantes que a população para quando você chega. Os olhos dos meninos brilham só de saber que tem um olheiro na cidade. Nunca imaginei que pudesse causar tanta comoção”, conta.

Muitas vezes a empolgação dos jovens é tanta que alguns fazem loucuras para participar de uma peneira – nome dado ao processo de seleção organizado por observadores técnicos. “Certa vez um garoto de 16 anos saiu do interior do Pará, sem dinheiro, e cruzou a Amazônia de barco e ônibus, por mais de 20 horas, pra chegar a Roraima, onde eu estava. Acabamos juntando dinheiro pra ele poder voltar para casa”, conta.

Psicologia da bola
Além do talento dentro de campo, ele acredita que o observador técnico precisa atentar para outros fatores antes de avaliar positivamente um jogador. “A gente é psicólogo também. Preciso saber se ele estuda, se tem uma boa família, ver o temperamento do garoto… Tudo isso tem que acompanhar o sonho dele de ser um atleta profissional.”

Paulo Nascimento, o olheiro do norte

Nascimento não espera encontrar nenhum jogador completo nas peneiras que organiza. Ele sabe que muita coisa vem com o tempo, com a experiência. “A idade ideal vai dos 9 até os 15 anos. Com esses meninos podemos trabalhar bastante. Os de 16 aos 20 já precisam estar mais preparados. Nessa idade o jogador não pode mais pecar, tem que dar 99,9% de aproveitamento”, sentencia.

Assim que detecta um atleta de futuro, o olheiro entra em contato com os grandes times. Se fechar negócio, o valor de sua comissão varia de 10% a 20% do que o clube pagar. Quando, ao invés do clube, acertar com um empresário, conhecido no meio como agente FIFA, o valor pode chegar aos 30%.

Apesar de ser um trabalho sério, ele alerta que a paixão pelo futebol pode atrair pessoas mal intencionadas. “Muita gente usa o sonho pra se aproveitar dessa garotada, tirando dinheiro da família e sumindo. Se chegar alguém dizendo que vai levar o garoto para algum clube, tem que ir atrás de referências dele, procurar o nome na internet e entrar em contato com o dirigente do time”, aconselha.

*Leia todas as reportagens do Especial Copa aqui