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Ética: a principal qualidade do advogado criminal

Visto como "defensor de bandidos", profissional zela pela Constituição

por Guss de Lucca
fotos por Newton Santos

Entre as diversas áreas do direito, a criminal é sem dúvida a mais polêmica. O advogado criminal defende pessoas acusadas de atos que violam as leis – e que algumas vezes são condenadas pela opinião pública antes mesmo de serem julgadas ou até mesmo formalmente acusadas.

É nesse universo que o advogado Roberto Delmanto Jr atua há mais de duas décadas. Apesar de pertencer a uma família conhecida no direito criminal desde 1935, data em que seu avô, Dante Delmanto, fundou o escritório em que ele trabalha, o jurista de 46 anos nunca soube ao certo qual carreira seguir – o direito, em suas palavras, “foi uma paixão conquistada pelo convívio”.

“Assim que entrei na faculdade comecei a trabalhar com meu tio e meu pai – tinha a cabeça raspada por causa do trote nos primeiros dias de serviço”, recorda Delmanto Jr, pouco antes de ser questionado sobre a má fama dos criminalistas, considerados por alguns como “defensores de bandidos”.

Guardião das liberdades
Para ele a função do advogado é zelar pela Constituição da República como um guardião das liberdades. “O criminalista jamais defende o que a pessoa fez ou deixou de fazer. Ele defende o réu, que pode ser ou não culpado. O que fez eu me apaixonar pelo direito penal é esse grande desafio de estar contra tudo e contra todos. Poder estender a mão para uma pessoa que está passando por um momento muito difícil e ajudá-la”, salienta.

Diferentemente do que pode parecer, Delmanto Jr afirma que isso não implica na aceitação de qualquer caso que apareça no escritório. “Não defendo todo caso que aparece. Toda semana recuso alguns. Questões de pedofilia, por exemplo, eu não defendo. Mesmo que o sujeito jure a inocência, pois sei que não vou agir como um bom advogado. Prefiro que ele vá atrás de alguém com outro perfil, que lide melhor com isso. Também não defendo tráfico de drogas.”

Roberto Delmanto Jr advogado criminal sp

Para ele, o importante mesmo é acreditar na causa, mesmo ciente de que raramente um cliente conta tudo ao seu advogado. “Já aconteceu de pegar um caso em que jurava que o sujeito era inocente e que depois me deixou em dúvida. Mas cumpri meu dever de defesa e guardei minhas dúvidas pra mim. O cliente sempre jurou inocência. Alguns clientes têm medo de perder o advogado ao falar a verdade. E outros são inocentes mesmo”, diz.

Culpados e inocentes
“Nem sempre a questão é a inocência. Muitas vezes adequamos a acusação para algo justo”, completa o advogado, citando o caso de um rapaz que ao fugir de polícia, que ele achava serem assaltantes, perdeu o controle do carro e atropelou o motolink de uma rede de televisão. “Ele havia sido acusado de tentativa de homicídio com dolo eventual e graças a nós isso foi alterado para lesão corporal culposa, sem intenção de matar. No caso esse moço é culpado, mas não de tentativa de homicídio qualificado”, explica.

Àqueles em dúvida sobre qual profissão seguir, ele garante que encontrarão um mercado tão aquecido quanto exigente. “Hoje quase tudo é crime no Brasil, o que faz do criminalista um profissional requisitado. Mas se a pessoa não tiver um diferencial vai passar necessidade. Precisa gostar de estudar, ter contatos com advogados de outras especialidades e ter ética – é ela que determina os seus limites diante dos clientes.”