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A advogada mais temida pelos clubes de futebol

Gislaine Nunes libertou dezenas de atletas ‘presos’ a times do País

por Guss de Lucca
fotos por Rogerio Montenegro

A figura do advogado geralmente vem acompanhada de sua especialização: criminal, família, civil, trabalhista… Mas raramente se ouve falar de um advogado voltado ao esporte – ainda mais quando a modalidade é o futebol. A não ser, é claro, que falemos de Gislaine Nunes.

Com uma história profissional que começa no início dos anos 1990, momento em que seu marido, o então lateral-esquerdo Evandro Nunes, estava preso pelo clube Noroeste após sofrer uma lesão no tendão, Gislaine se tornou a advogada mais famosa do País quando o assunto é livrar um atleta do contrato com um time.

“Quando meu marido contou que tinha um tribunal de exceção para julgar seu caso, uma Justiça Desportiva, achei um absurdo. Eu já era formada em direito e sabia que de acordo com a Constituição ninguém pode ser impedido de buscar no Judiciário as garantias dos seus direitos”, lembra a advogada, que na época desconhecia muitas particularidades do esporte.

Gislaine passou a chamar a atenção de outros jogadores, que assim como o marido, estavam presos aos clubes pelos famosos passes. “Começaram a falar que a mulher do lateral fazia esse tipo de processo e de repente o presidente do Sindicato dos Atletas de São Paulo da época, o doutor Heraldo Panhoca, me chamou para trabalhar lá. Eu não tinha salário, mas podia advogar pelos jogadores que precisassem”, conta.

Gislaine Nunes advogada jogadores futebol

Lei Pelé
O esforço logo rendeu frutos. Além do aumento de serviços, Gislaine estava no centro da criação da Lei Pelé, responsável por instituir o fim do passe nos clubes de futebol do Brasil em 1998. “Trabalhamos na lei dentro do sindicato antes dela ser publicada, pois o Pelé, que era ministro, pedia nossas sugestões. Assim que ela foi aprovada eu entrei com os primeiros processos baseados nela. Os juízes diziam ‘mas a lei saiu ontem e a senhora já está aqui'”, recorda Gislaine.

Na época a advogada chegou a liberar por dia cinco jogadores de seus clubes – uma rotina puxada. “Éramos apenas eu e mais dois estagiários. Cheguei a desmaiar no sindicado, onde ficava até às três da madrugada trabalhando tamanho o volume de processos. Todo dia recebíamos vários jogadores do interior de São Paulo – muitos que não recebiam há mais de um ano e estavam presos aos clubes”.

A fama chegou em 2001, quando a advogada defendeu o jogador Juninho Pernambucano contra o Vasco, então comandado pelo famoso cartola Eurico Miranda. “Fui a primeira a mexer com o Eurico, que é uma fera e muito inteligente – foi um bom adversário. Foram doze liminares durante os quatro anos de processo, mas vencemos e depois ainda tirei mais uns nove atletas do Vasco”, comemora.

De acordo com Gislaine, o mercado para os advogados com interesse no futebol tem espaço, ainda mais com as modificações sofridas pela Lei Pelé nos últimos anos. “Ela foi mutilada, infelizmente, por causa do lobby dos times. Mas quando o legislador age com raiva, ele sempre faz porcaria. Por isso, por ser mal feita, a mudança na lei permite que os advogados trabalhem em suas brechas”, afirma.

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