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Designer gráfico: mais transpiração do que inspiração

por Rejane Tamoto
fotos por Rogério Montenegro

Nem gênio, nem artista, nem criativo. A atuação do designer gráfico vai além desses clichês comumente associados à profissão. Por definição, ele é o responsável por um projeto que será reproduzido em escala e em plataforma multimídia. “Um bom projeto de design é multimídia por si só. Tenho de prever a presença dele em papelaria tradicional, site, na porta de um automóvel, em embalagens. Se for para construir uma marca, ele deve atuar de forma eficaz em todo esse processo”, afirma Carlos Perrone, designer gráfico e coordenador da pós-graduação em Design Gráfico da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Ele diz que o profissional faz projetos, estuda as necessidades, gera um briefing e coloca em prática conceitos para dar soluções ao cliente – seja uma instituição, empresa ou agrupamento social. “Para isso, precisa ter um amplo conhecimento em comunicação gráfica, tipografia, de escalas cromáticas, sistemas de impressão, suportes eletrônicos e de criação. Tudo, inclusive a criação, exige estudo e conhecimento aplicado e sistemático”, avalia o coordenador.

Quando descreve as habilidades necessárias ao designer e reforça a importância de estudar, Perrone tenta esclarecer uma certa confusão que existe hoje no mercado de trabalho. Pelo fato de não ser uma profissão regulamentada, o design gráfico acaba sendo exercido por pessoas com formação em outras áreas, como comunicação social e suas vertentes (publicidade e marketing).

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O professor (foto ao lado) explica que, por isso, a palavra design tem perdido um pouco de seu significado conceitual, que é o de projeto para ser reproduzido em escala. “Existe uma grande quantidade de cursos livres e técnicos voltados para o design. Eles formam executores e operadores que manuseiam aplicativos e estão sempre atualizados, mas não formam designers gráficos. Não desqualifico a formação técnica porque os estúdios de arte precisam de operadores para lidarem com aplicativos, web e editoração. Só que a formação é diferente”, pondera.

Os cursos livres acabam, inclusive, ajudando os jovens a descobrir se é isso que querem para suas vidas. Foi o que aconteceu com Leire de Souza, designer gráfico de 24 anos que, hoje graduada, descobriu a paixão pela profissão durante cursos desse tipo em webdesign e com ênfase em cinema. “Foi muito bom porque pensava só em trabalhar com web, mas descobri a animação, a criação de embalagem e há um ano faço projetos editoriais para revistas segmentadas. É interessante pois tenho de separar as informações e encontrar a melhor forma de mostrá-las ao leitor”, comenta.

No entanto, Leire acredita que sua profissão ainda não é tão valorizada no mercado. “Há pessoas que acham que podem entrar no mercado sem formação e isso desvaloriza os salários. Sem falar no mau uso da própria palavra design por aí. Não existe design de unha nem design de sobrancelha. Design é um projeto para ser reproduzido em escala e esse trabalho dos salões de beleza são individuais”, ressalta. Ainda assim, Leire planeja continuar fazendo cursos de aperfeiçoamento e experimentar novas áreas para, futuramente, abrir sua própria empresa. “Quero estudar direção de arte e trabalhar com ilustração”, revela.

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Perrone, da FAAP, defende que as pessoas que decidem seguir essa carreira cursem a faculdade porque é uma área que requer um trabalho racional, conhecimento, cultura e estudo. “É estudar para se formar, para se informar, estagiar e trabalhar. E continuar estudando. O mais recente dos três cursos de pós-graduação que fiz foi na área de comunicação, porque era um conhecimento que enriqueceria a minha atividade de designer gráfico, que abrange informação, comunicação e contato”, diz o coordenador, que também tem especializações em arquitetura & meio ambiente e em design.

Ele entende que cada designer segue um percurso profissional e de estudos próprios, de acordo com a geração. O próprio Perrone exemplifica essa afirmação, já que se graduou em Arquitetura na época em que não existia curso universitário na área. “Não é só fazer a faculdade. A formação básica ajuda a construir o jeito de ser e a linguagem de cada um. O design é autoral”, pontua. Segundo Perrone, o curso de graduação da FAAP foi o primeiro a ser lançado em São Paulo, entre as décadas de 1960 e 1970, mas a pioneira foi a Escola Superior de Desenho Industrial no Rio de Janeiro.

Duas especializações mantêm William Castro, designer gráfico de 26 anos, atualizado e apaixonado pelo que faz . A primeira, em 2011, foi uma pós-graduação em design editorial e agora, um mestrado em comunicação e marketing. “Eu me divido entre o trabalho no estúdio e as aulas que ministro na Faculdade Belas Artes. Gosto muito da parte acadêmica, mas não quero deixar a prática de lado nunca. Muito do que eu sei aprendi no dia a dia”, conta Castro.

Ele começou a carreira diagramando revistas de bairro na adolescência e na faculdade cursou design gráfico e design de produto. O resultado foi o desenvolvimento de projetos distintos para empresas, como a diagramação de logotipos, revistas, embalagens e de identidade visual. O mix de experiências fez com que ele abrisse o próprio estúdio e conquistasse uma clientela formada por pequenas empresas, o que culminou mais tarde na conquista de clientes de peso como Carrefour e Habib’s.

“Os empresários estão descobrindo o design como elemento que agrega valor ao produto. E ele está em tudo, na escova de dentes, na garagem”, completa. Para quem está começando a carreira, Castro considera que o ideal é conhecer o que o design faz e todas as suas ramificações (que são muitas), para detectar áreas de interesse e fazer cursos. Para o futuro, o profissional pensa em estudar produção de vídeo e animação, de olho na tendência do mercado para a publicidade digital. “O investimento em propaganda na internet está crescendo e o caminho é esse, incluindo toda a parte de aplicativos para o celular. Hoje mesmo as crianças assistem a mais vídeos na Internet do que TV”, conclui.

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