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Dia da Mulher: os dilemas de ser mãe trabalhadora

Profissional de comércio exterior dá exemplo de como vencer as dificuldades

por Guss de Lucca
fotos por Newton Santos

Apesar de jogar contra números que mostram a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, como os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que revelam que na última década o salário delas correspondeu a pouco mais de 70% do deles – mesmo com o índice de escolaridade feminina superior ao da população masculina -, muitas mulheres conseguem conciliar os papéis de esposas e mães com suas carreiras.

É o caso da paulista Elaine Cristina Carvalho. Aos 35 anos, a tecnóloga em comércio exterior superou as expectativas de quem não via futuro para a jovem que engravidara ainda no ensino médio. “Foi um período de turbulência. Meu pai tinha ido embora de casa e eu precisei pedir demissão do emprego de recepcionista de escritório de contabilidade”, conta ela, salientando que não se tratava de uma gravidez indesejada, pois queria muito ser mãe naquele momento.

“Fui morar junto com o genitor – que de pai não tem nada. E logo descobri na convivência que ele não gostava tanto de mim. Na época estava sem família por perto, grávida e sem trabalho, e por isso acabei morando com a mãe dele depois de uma tentativa fracassada de viver só com ele”, relembra Elaine, que vê na ex-sogra uma parceira que a ajudou até a filha Nicole completar três anos.

Elaine Cristina Carvalho dia internacional da mulher

Após uma breve passagem pela casa da mãe de uma amiga, a jovem conseguiu alugar um imóvel com o dinheiro que tirava do emprego de assistente odontológica – o que permitiu a ela trazer a mãe e a irmã de volta do interior. “Depois disso fui terceirizada no Banco do Brasil por um ano e finalmente entrei para uma empresa de indústria química como compradora.” Foi lá que que se interessou por comércio exterior.

Determinada a fazer uma faculdade, Elaine prestou o Enem, ganhando 50% de bolsa e assim, em 2012, concluiu o curso técnico. Com o diploma em mãos, ela pediu ao dono da empresa uma chance para cuidar da parte de comércio exterior, mas acabou recebendo um não como resposta.

“Eu havia me casado de novo e meu marido me disse para pedir demissão e procurar por algo. Foi assim que comecei do zero como estagiária de um despachante aduaneiro – aquele que cuida de documentação de empresas que fazem exportação e importação. Lá, cuidando da exportação aérea, senti que fiz a escolha certa”, diz Elaine, que ficou por dois anos no cargo até resolver mudar novamente.

Em outra empresa do meio ela passou a cuidar da área de transporte rodoviário, onde atua até hoje lidando com trâmites que envolvem exportação de produtos químicos na América Latina – trabalho que a obrigou, entre outras coisas, a aprender espanhol “na raça”, muitas vezes pedindo para que a pessoa do outro lado da linha falasse mais devagar.

Elaine Cristina Carvalho e a filha

“Estou há um ano e meio usando o meu ‘portunhol’ para lidar com situações diversas, que vão desde análises burocráticas de documentos até conversas pela madrugada com fronteiras onde carregamentos ficaram parados pela falta de classificação de risco de algum produto – algo que por vezes depende da interpretação do fiscal e gera muita dor de cabeça”, conta a tecnóloga.

As dificuldades que encontrou até agora pelo simples fato de ser mulher não foram suficientes para fazê-la desistir. “Se fosse homem acho que seria mais fácil, pois ainda existe preconceito. Deixei a empresa onde estava porque como única mulher do departamento recebia um tratamento diferente do supervisor, que dizia coisas como ‘não vai pensando que vou te tratar melhor por ser mulher e branquinha de olho claro’. Só faltava esfregar minha cara no monitor ‘pra’ mostrar onde eu errei”, recorda.

Mas hoje, olhando para a filha de 15 anos, Elaine revê sua suada jornada com olhos vitoriosos. “Passaria por todos os perrengues de grana e moradia de novo, pois mesmo tendo estudado tarde, vejo que existe um tempo certo para colher os frutos. Não é fácil, mas sou insistente ‘pra’ caramba. A dica que posso deixar para outras mulheres é jamais desistir, pois tem saída pra tudo. Quem fala que não tem jeito é porque não tem vontade.”

*Dia 8 de Março é Dia Internacional da Mulher