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Um barbeiro com 70 anos. De profissão

Dutra, 83, fala das alegrias e dificuldades da profissão de barbeiro

por Guss de Lucca
fotos por Newton Santos

É comum ouvir histórias de profissionais que seguiram o instinto para descobrir sua vocação. Mas não é sempre que se encontra alguém que foi escolhido por um ofício. Quem entra no Salão Paratodos, na Vila Monumento, zona sul de São Paulo, vai fatalmente encontrar o barbeiro Wilson Dutra, 83, em ação ou lendo compenetrado um dos exemplares de sua coleção de gibis do cowboy “Tex”.

Dutra, que vai completar 70 anos de profissão, começou muito cedo, quando seu pai arrumou para ele o serviço de assistente num salão no bairro do Ipiranga. “Eu era garoto e não gostava muito de estudar. Na época tinham poucas escolas e as que existiam eram longe de casa. Por isso, meu pai dizia que eu tinha que aprender logo uma profissão. Foi quando o Valdemar comentou que precisava de alguém para fazer a limpeza da sua barbearia”, conta ele. “Tinha que limpar vidros, espelhos e a rua não era asfaltada – entrava um poeirão e sujava tudo”, relembra.

Em três anos, Dutra estrearia como barbeiro sob a tutela do patrão, a quem observava atentamente para aprender os macetes do ofício. “Com 18 comecei a cortar. Tinha receio, pois sou canhoto e precisava trabalhar com a mão direita. E naquela época fazíamos a barba dos clientes só com navalha, que afiávamos na pedra. Era uma mão de obra violenta”, relata o veterano, que admite ter cortado alguns dos clientes nas primeiras vezes que manuseou a navalha. “No começo sangrei alguns, sim. Fiz exame de sangue nos fregueses”, brinca.

barbeiro Wilson Dutra são paulo

Foram 15 anos trabalhando no mesmo salão até surgir a decisão de abrir o seu próprio espaço, um dos mais antigos da Vila Monumento. Foi no bairro, trabalhando de segunda a sábado, das 8h às 19h, que Dutra conquistou uma clientela fiel que não mede esforços para ir onde o barbeiro estiver. Um dos clientes atendidos durante a entrevista, ex-morador da região, havia se deslocado por mais de 10 quilômetros, do bairro da Casa Verde, na zona norte, só para cortar o cabelo com ele.

Entre as principais mudanças sofridas nessas décadas o barbeiro cita a diminuição do volume de serviço, que no caso das barbas caiu de seis por dia para menos que isso por semana, e as limitações da idade como principais dificuldades do dia a dia. “Já não tenho mais aquela agilidade de garoto de 20 anos.”

Apesar da aposentadoria, Dutra revela que nunca deixou de trabalhar por pura necessidade – o mesmo motivo pelo qual passou décadas sem tirar férias, ‘luxo’ que só entrou em sua rotina nos últimos anos. “Como não tenho dinheiro para parar, o negócio é pedir a Deus por trabalho e saúde”, diz. Porém, aos 83 o barbeiro ainda encontra satisfação ao observar o sorriso de um cliente no fim do serviço. “A gente fica feliz. É sinal que ainda estamos fazendo um bom trabalho.”