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Viver exclusivamente do artesanato é possível

Artesã em São Paulo mostra como é faz para ganhar a vida com o trabalho

por Guss de Lucca
fotos por Newton Santos

Ao caminhar pelas feiras nas mais diferentes cidades do País, deparamos com peças artesanais, que refletem tanto nos materiais utilizados em sua produção quanto na forma de trabalho do autor, características da cultura popular de cada local.

O que pode parecer difícil de acreditar é que muitos desses profissionais do barro, da madeira, das linhas e de outros materiais vivem exclusivamente do trabalho com artesanato. Esse é o caso da artesã Cleide Toledo, residente da Vila Esperança, na Penha, bairro de São Paulo. Graças ao trançado de taboa ela conseguiu criar os filhos após a morte do marido e mais – tornou-se referência mundial nesse ofício.

Porém, a viúva de 57 anos nem sempre imaginou que sua vida seria ganha dessa maneira. Quando se casou com o artesão Manuel Baptista Neto, em 1976, ela estudava bioquímica e trabalhava em um banco de sangue. Porém, como o serviço do marido não dava conta de pagar as despesas da casa, ela largou a área da saúde para auxiliá-lo em sua oficina.

Brejos e mangues
“Ele foi um grande artista. Pintava, esculpia, trabalhava com metal e couro. E foi vendo os caiçaras usarem a palha da taboa, uma planta abundante que cresce em brejos e mangues, que ele desenvolveu um trançado diferente, mais grosso, e passou a dar às peças formas diferentes”, explica ela, que no começo apenas ajudava no preparo do material.

“Formávamos uma dupla perfeita. Eu fazia a parte de pintura e ele as esculturas. Na época eu não transava a palha. Mas ele insistia que ia me transformar numa grande artesã – eu duvidava, não achava que tinha habilidade”, relembra Cleide, que anos mais tarde acabou tendo que “aprender pela dor”. Com o marido oito meses entre internações no hospital e em casa, ela teve que começar a trançar.

artesã Cleide Toledo são paulo

“Eu tinha duas crianças e contas para pagar. Precisava trançar. Chorei muito nessa época. Começava a trançar, não dava certo, eu chorava. Até que um dia havia essa trança pronta de um vaso com 1,20 metros de altura. Ele me ajudou e quando terminei a peça ele chorou e disse que podia morrer sossegado, pois eu já sabia tocar a oficina. Em 2006 ele faleceu e a partir daí segui sozinha”, relembra.

Mas a vida reservava outras emoções para Cleide. Após desenvolver as técnicas do marido, a artesã foi tema de um trabalho da faculdade de arquitetura e design de Florença, na Itália, onde suas peças estão expostas no Museu da Palha da cidade. Além disso, ela passou a dar cursos ensinando o trançado de palha – “uma maneira de não deixar essa técnica morrer”.

Trabalhando ao som do rádio
A rotina atualmente é puxada e inclui duas visitas mensais ao brejo, onde as folhas são colhidas. Nos demais dias Cleide fica sozinha na oficina trabalhando ao som do rádio ou da televisão. Entre seus clientes estão decoradores, arquitetos e cenógrafos. Dali, saem vasos, estátuas e até cabeceira de cama.

“É um trabalho muito gratificante. E se passo dias sozinha na oficina, também participo de eventos em que entro em contato com muitas pessoas”, afirma a viúva, que vê o mercado de artesanato atual com bons olhos. “Conheço muita gente que vive exclusivamente do artesanato. O que talvez atrapalhe alguns artesãos lá do interior é a falta de formação – alguns não sabem escrever nem mexer no computador, mas têm trabalhos fantásticos”.

A dica de Cleide para quem quer se profissionalizar é entrar em contato com a SUTACO (Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades) e se credenciar. “Eles indicam os artesãos para lojistas de acordo com o segmento procurado e promovem cursos e eventos.”

*Dia 19 de março é dia do artesão