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A difícil arte de brincar nos dias de hoje

Músico e artista Antonio Nóbrega tenta salvar o Brincante em São Paulo

por Guss de Lucca
fotos: divulgação

Aos 62 anos, o nome do músico e artista Antonio Nóbrega não figura entre outros famosos por um motivo simples: diferentemente de muitos de sua geração, ele manteve certa distância da TV, voltando sua arte para espetáculos que o deixassem mais próximo do público. “Participei de muitas edições do programa ‘Som Brasil’, fiz duas séries e até participei da novela Ana Raio & Zé Trovão, mas nunca tive entusiasmo pela televisão. Resolvi orientar minha energia criadora para artes como dança, música e teatro. Mas não tenho nada contra a TV”, afirma Nóbrega.

No começo dos anos 1990, o artista não conseguia achar um lugar para apresentar o espetáculo Brincante em São Paulo durante os fins de semana. Foi quando ele descobriu na Vila Madalena alguns galpões fechados por causa do então Plano Cruzado, que levou diversas empresas à falência. “O lugar que ocupamos abrigava uma pequena fabriqueta de lustres que não conseguiu se manter. Entramos em contato e o dono facilitou o aluguel, nos permitindo ficar no galpão sem pagar enquanto o reformávamos”, conta.

Antonio Nobrega Brincante Vila

Em 1992, ele inaugurou o Instituto Brincante, referência quando o assunto é cultura brasileira. A foto de destaque mostra o dia da inauguração do espaço no famoso bairro da zona oeste. Em 22 anos de atividades ele e os demais integrantes do Instituto, por onde passaram mais de 80.000 pessoas entre alunos e público, viram o bairro paulistano se transformar. Agora sofrem com a especulação imobiliária, responsável por alterar a região nas últimas décadas.

“Na época a Vila Madalena não era nada do que é hoje. Era um bairro quase que estritamente residencial. E como eu vinha de Olinda, achava que a Vila tinha um quê de cidadezinha de interior, com poucos edifícios”, diz o artista.

Desocupação do imóvel
Em 20 de maio desse ano o Brincante recebeu uma notificação exigindo a desocupação do imóvel em 30 dias, fato que deu início a uma batalha judicial ainda em andamento. “Brigamos pela chance de adquirir o imóvel, que deveria ser oferecido a nós primeiro, pois estamos lá faz 22 anos. Enquanto esperamos pelo laudo judicial seguimos funcionando normalmente”, relata.

Nóbrega conta que mesmo não tendo o valor necessário para comprar o espaço, acredita que pode se afiliar a empresas e pessoas interessadas em manter as atividades do Instituto. “Temos uma petição chamada ‘Fica Brincante’ e estamos abertos a ideias e soluções. Estamos num momento de recepção total. Tudo isso amplia a discussão e dá a ela um âmbito nacional, que vai além do Brincante. Não somos os únicos sofrendo impasses desse tipo.”

Apesar dos problemas enfrentados, ele mostra serenidade e determinação em superar esse novo capítulo de sua história de sucessos. “Se a gente vê a fera e foge, estamos ferrados. Eu me sinto mais impulsionado a oferecer opções pra que as pessoas se humanizem, não se ‘coisifiquem’ mais. A vida vai ficando árida e a brincadeira, a arte e a cultura são maneiras que a gente tem pra não ficar como uma pedra ou um vegetal”, diz ele.

Para ajudar o Instituto Brincante acesse o link e assine a petição.