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Arqueólogo: realidade passa longe do cinema

por Guss de Lucca
fotos por Ailton de Oliveira/arquivo pessoal

Graças ao cinema, no imaginário popular o trabalho do arqueólogo consiste em explorar regiões esquecidas pelo tempo em busca de artefatos valiosos, o que invariavelmente envolve disputas com tribos locais, perseguições com bandidos e refeições regadas a ingredientes bizarros como cérebros de macacos. O fato é que a realidade não poderia ser mais diferente.

Atuando há 12 anos no mercado de arqueologia de contrato, a paulistana Karin Shapazian define seu trabalho como uma série de procedimentos meticulosos e bem específicos – e nenhum deles envolve pedras gigantes rolando atrás dela.

“Sempre que um empreendimento vai causar impacto ambiental, como uma hidrelétrica ou obra viária de grande porte, caso do Rodoanel, em São Paulo, o Estado exige que seja feito um estudo arqueológico, pois pela lei brasileira todo sítio ou artefato é um bem da União e cabe a ela zelar por isso”, explica.

Diagnóstico da área
É nesse momento, antes do início de uma obra, que começa o serviço do arqueólogo. Após ser procurado pela empresa responsável, é tarefa desse profissional fazer um primeiro diagnóstico da área. “Faço um levantamento do potencial arqueológico do local. E mesmo que ele não seja grande, parto para a prospecção no subsolo. É aí que vou saber se há ou não material arqueológico”, relata Karin, que já viu peças surgirem em escavações de 50 centímetros até 5 metros de profundidade.

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“No caso de haver material arqueológico é solicitado ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) um salvamento, segunda etapa do trabalho do arqueólogo, que consiste no estudo detalhado do que foi encontrado. No salvamento temos um prazo determinado pelo arqueólogo com a aprovação do Iphan e do cliente, que normalmente quer que tiremos o material o mais rápido possível”, conta.

Tudo o que é descoberto é encaminhado ao laboratório, local em que o profissional da arqueologia faz a curadoria do material. “Lavo, identifico e analiso os achados. Ao término desse procedimento faço um inventário, que é entregue junto com o relatório final, ao mesmo tempo em que deixo tudo aos cuidados de um museu ou uma instituição, responsável por arquivar a descoberta para futuros estudos ou até mesmo exibi-la”, explica a arqueóloga.

Salvaguarda do material
Karin conta que a salvaguarda do material arqueológico não pode ser feita por qualquer um. É necessário um órgão competente para cumprir essa tarefa. “Em São Paulo há o Departamento de Patrimônio Histórico, que tem infraestrutura para salvaguardar esse material”, explica ela, deixando claro que os custos por isso entram na conta do empregador. “Ele paga essa parte da mesma forma que pagaria o replantio de árvores derrubadas na obra. Até porque se ele danificar o que foi encontrado vai responder por um processo.”

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A arqueóloga lamenta que esse cuidado com a história não seja algo antigo no Brasil. “Imagine quantas empresas, no passado, nesses ‘booms’ de construção, deixaram que patrimônios se perdessem, sítios históricos inteiros”.

Questionada sobre como o arqueólogo é remunerado, ela diz que cada etapa do processo tem um orçamento diferente. “Quando começamos não sabemos o que vamos encontrar, mas tem cliente que quer o orçamento de tudo antecipado – algo impossível de fazer sem saber se existe material arqueológico e qual é o tamanho do sítio. Já caí nessa e me dei mal. Quando vi o serviço era bem maior do que tinha previsto”, afirma.

Entre os serviços já realizados por ela estão descobertas no Piauí, que envolveram de moedas antigas a pedras lascadas, usadas como ferramentas, e pesquisas no centro da cidade histórica de Paraty, no litoral fluminense. “Lá é fabuloso, pois trata-se de um monumento arqueológico a céu aberto. Quem vai passear acha que a cidade é original, mas existia uma cidade anterior. Descobrimos que algumas casas não preservaram suas fachadas e desenhos originais – até mesmo ruas foram modificadas.”

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Regulamentando o trabalho dos arqueólogos
Tudo que é feito por Karin segue a cartilha do Iphan, autarquia do Governo Federal vinculada ao Ministério da Cultura, responsável pela preservação do acervo patrimonial do País.

Arquiteta com mestrado em meio ambiente e doutorado em arqueologia, Marize Campos trabalha há 29 anos no Iphan, direcionando os arqueólogos que procuram o órgão. “Para atuar num sítio o arqueólogo precisa de um ato administrativo, que é uma autorização para realizar sua pesquisa. Para poder pedir uma portaria o profissional precisa, antes de tudo, comprovar sua formação como arqueólogo, seja graduação, mestrado ou doutorado”, explica.

“O Iphan fiscaliza a pesquisa enquanto ela é feita e analisa o relatório enviado pelo responsável. Só na hora de dar o parecer final é que vemos se nossos objetivos foram devidamente atendidos”, conta Marize, apontando o Estado de São Paulo como responsável por 40% do que acontece no País no que diz respeito à pesquisa arqueológica.

Legislações específicas
“Como São Paulo é o coração do Brasil em empreendimentos e economia, a gente acaba tendo muito trabalho. Mesmo dentro da capital, no Centro, existe uma dinâmica interessante. O próprio município e o estado têm legislações específicas que determinam que haja pesquisa arqueológica na cidade.”

Quanto ao mercado de trabalho, Marize vê muito espaço para novos profissionais. “Se a legislação for cumprida existe um espaço absurdo. Imagine que qualquer coisa que precise de uma licença na Secretaria de Meio Ambiente, nas prefeituras e no Ibama, por exemplo, tem que ter um estudo arqueológico”, conta.