Home > Acontece > Acontece no Mercado > Temporário hoje, efetivo amanhã

Temporário hoje, efetivo amanhã

Por Udo Simons

Há poucos dias, Karen Aparecida Santos, de 22 anos, realizou seu sonho. Conseguiu uma vaga permanente no seu primeiro emprego na área que tanto desejava trabalhar, a de recursos humanos. Ela foi efetivada como assistente administrativa do departamento de gestão de pessoas do grupo varejista farmacêutico Raia Drogasil. Essa tão desejada conquista veio depois de um período de seis meses em que foi funcionária temporária da empresa.

“Esse emprego foi a oportunidade que tive para me inserir no mercado de trabalho. Foi a chance para mostrar minha capacidade profissional”, diz Karen. E quando a sua carteira de trabalho foi assinada, teve a certeza que seu “esforço” fora reconhecido. “Agora posso me planejar, pensar em pós-graduação, fazer inglês. Quero me aprimorar.”

A história de Karen é similar à de milhares de outros brasileiros, jovens que, na busca por uma colocação profissional, encontraram sua primeira oportunidade pelo mercado de trabalho temporário ou de terceirizados. Pesquisa encomendada por entidades ligadas ao setor de mão de obra temporária prevê a criação de 159 mil vagas na indústria e no comércio, 1,3% a mais do que no ano passado. Outubro é o mês chave para recrutamento, já que as festas de final de ano são o grande motor dessas contratações.

De maneira geral, vagas temporárias ou terceirizadas são oferecidas nos mais diversos setores produtivos nacionais, mas, historicamente, a maior oferta está no varejo, em empresas de bens de consumo, telecomunicação, TI e bancos. O trabalho em si varia desde o mais simples, com pouco ou nenhum requisito educacional, até postos-chave nas organizações, em cargos da direção, até mesmo na presidência, como CEO. O perfil de quem se candidata a uma dessas vagas é estimado, pelo mercado, de três maneiras: jovens entre 18 e 25 anos; pessoas em transição de carreira, dos 35 aos 45 anos; e aqueles que estão, de fato, desempregados.

“A partir da segunda quinzena de outubro, os shopping centers, principalmente as grandes redes varejistas, começam a contratar temporários para prepará-los para o movimento do comércio do fim do ano”, comenta o diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping, Alshop, Luís Augusto Idelfonso. A partir de meados de novembro são as lojas de médio porte (regionais) e locais que iniciam suas contratações. “Independentemente ao dia do começo da capacitação dos temporários, todos têm de estar preparados para o atendimento ao público a partir da primeira semana de dezembro”, completa.

O Brasil possuía no final de 2012, 828 shoppings. Juntos, movimentaram R$ 123,1 bilhões, valor correspondente a cerca de 17% da movimentação das vendas no varejo nacional. De acordo com o último levantamento da associação, os shoppings empregavam 1,215 milhão de funcionários, entre profissionais nos setores de venda, administrativo e infraestrutura. Para o fim do ano, geralmente, a contratação de temporários varia de 10% a 12% do total desses trabalhadores fixos. Ou seja, estima-se a abertura de aproximadamente 120 mil vagas nesse segmento em 2013.

Dedicação

“Este ano, temos a previsão de contratar 300 funcionários temporários na empresa”, antecipa Vânia Medina, gerente de Recursos Humanos do Grupo Raia Drogasil. Há dois anos atuando na área farmacêutica como gerente de gestão de pessoas, Vânia enfatiza o modelo temporário ou terceirizado como porta de entrada para jovens que queiram crescer.

“Pode começar como auxiliar de reposição ou atendente, mas a possibilidade de crescimento é iminente pelo nosso plano de carreira.” De acordo com Vânia, 40% dos temporários são efetivados na empresa. E se persistirem na apresentação de bom trabalho, eles chegam a gerente regional em cinco anos. Há um caminho a seguir onde o inicio é ser, como temporário, atendente ou auxiliar; depois, já efetivado, tornar-se balconista; na sequência, gerente adjunto; em seguida, gerente de loja; por fim, gerente regional.

“Isso é possível e temos exemplos de diretores que um dia começaram como auxiliares.”

Em se tratando de salário, o crescimento, então, é exponencial. Aumento de 10 vezes em relação aos ganhos mensais iniciais. “Pagamos o piso da categoria e benefícios para quem começa. A mudança de faixa salarial vai depender da dedicação de cada um.” Em termos práticos, o recebimento mensal de R$ 800 pode se transformar em R$ 8 mil com o plano de carreira.

Thaís Ramos Lima, 26 anos, é analista de Assuntos Regulatórios Júnior de uma multinacional norte-americana da área de saúde. Formada em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp de Araraquara), desde maio ela é funcionária temporária. Pela lei, ela só tem até novembro para continuar empregada por essa modalidade. A legislação brasileira prevê contratação de temporários pelo tempo máximo de seis meses.

“Sinto-me numa corda bamba, sendo temporária”, diz Thaís. Ela é do interior de São Paulo, mas vive na capital do estado. Mora com a irmã no apartamento do avô. “Não tenho que pagar aluguel, mas existem outras despesas. Não consigo planejar melhor minhas atividades para o futuro.” Apesar das incertezas, ela reconhece que sendo temporária conseguiu se empregar na área que mais gosta em sua profissão, a de assuntos regulatórios. “O aprendizado foi minha maior conquista. Estou realizada por isso.” Apesar de estar contando o tempo para o fim do seu contrato, Thaís não perde seu bom humor. Extremamente comunicativa, é enfática quando afirma que deseja crescer. “Quero melhorar como profissional. Se possível crescer na empresa em que estou.”

Foi também pensando em melhorar sua empregabilidade que Marcílio Jesus de Souza, 44 anos, chegou a uma posição de temporário. Na verdade, ele estava procurando um novo emprego. Fazia 10 meses que estava desempregado quando, em janeiro deste ano, a oportunidade de ser temporário apareceu na sua vida. “Nunca tinha vivido a situação de temporário. Sequer sabia da possibilidade de ser contratado dessa forma, quando uma agência de emprego me procurou. Eles viram meu currículo e me contataram para saber se tinha interesse numa oportunidade de trabalho”, relembra. Ele aceitou o desafio e, em setembro último, foi efetivado como analista contábil da Hamburg Süd.

“Ser temporário foi maneira de entrada na empresa. Não teria conseguido essa vaga se não tivesse aceitado a oferta no começo do ano. Durante o período em que não era permanente, a empresa teve a chance de conhecer meu trabalho e fazer uma contratação com mais segurança.”

A executiva Carolina Asevedo, diretora da Page Interim, agência especializada em temporários e terceirizados, destaca, entre outras características desse segmento, a possibilidade de maior conhecimento do contratado pela contratante e vice-versa. É uma oportunidade que as partes desse relacionamento têm para se conhecerem melhor, efetivamente. “O temporário é um profissional interino. Ele tem suas qualidades. Está num momento de transição de carreira”, pontua Carolina. Para a executiva, o Brasil vive uma fase de construção de cultura em relação a esse segmento, apesar da lei que regula essa modalidade de trabalho existir desde a década de 1970. “Essa situação não é nada nova, mas ainda estamos bem distante da realidade de países da Europa, por exemplo.”

Nota do editor: No momento da publicação deste texto, havia 303 vagas de temporários abertas no VAGAS.com.br. Você pode conferi-las aqui.

LEIA TAMBÉM