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Salários de até R$ 100 mil na indústria de petróleo e gás

Por Lucia Helena Corrêa

Muito antes de o Brasil cogitar a importação de médicos para suprir a discutível escassez desses profissionais no país, a indústria de petróleo e gás, às voltas com a carência de especialistas de níveis superior (engenheiros) e médio (técnicos), já examinava a viabilidade de recorrer a talentos estrangeiros para vencer o gap de mão de obra. É o que constata a OIT (Organização Internacional do Trabalho), que discutiu o assunto amplamente durante o Fórum Global sobre Especialização em Petróleo e Gás, em dezembro do ano passado, em Genebra, na Suíça.

Na ocasião, estudos apresentados revelaram que, no período de 2009 a 2011, a indústria brasileira de petróleo e gás, pressionada pela demanda gerada pelo pré-sal, trouxe para cá 50 mil profissionais de outros países. Com isso, na lista dos setores produtivos, assumiu a liderança na importação de talentos, batendo o recorde de pedidos de visto de permanência para trabalhadores estrangeiros no Brasil.

Outro levantamento, feito pela BBC Brasil em parceria com a Coordenação Geral de Imigração (CGIg), ligada ao Ministério do Trabalho em Emprego (MTE), contabiliza a entrada no país de 49.801 profissionais procedentes de países como Grã-Bretanha, Estados Unidos, Noruega, Holanda e França, no período de 2010 a 2012, para exercer diferentes cargos na indústria de petróleo e gás. Esse número, o mais recente divulgado pelo MTE, ratifica o estudo da OIT e confere ao Brasil a liderança na emissão de 25% de todas as permissões de trabalho, temporárias e permanentes, concedidas no período, envolvendo 15 atividades econômicas diferentes.

Apenas em 2011, diz a BB Brasil, a atividade petrolífera contratou mais de 23 mil engenheiros e técnicos da área de petróleo e gás, dado que é quase dez vezes maior que o registrado em 2006, quando para cá vieram 2.645 profissionais. Em 2012, apesar da desaceleração, ainda se emitiram 17 mil permissões de trabalho para profissionais estrangeiros.

Paulo Buarque de Macedo Guimarães, superintendente da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip), admite:

“A demanda por profissionais qualificados no setor petrolífero é um assunto que nos preocupa há muito tempo.”

Na opinião dele, a saída pela importação de talentos não chega, porém, a ser uma boa alternativa, pois não é interessante para a economia e para a saúde social do Brasil.

Um profissional sênior, altamente qualificado, vindo de outro país acompanhado da família, chega a receber, entre salário direto e benefícios, mais de US$ 100 mil – o dobro do que recebem os profissionais brasileiros mais talentosos e bem cotados. Não é justo com os brasileiros, a despeito de alguns perderem termos de qualificação para os colegas estrangeiros, reconhecem alguns analistas. “Seria muito mais econômico contratar um profissional brasileiro”, defende Guimarães.

Aprendendo com quem sabe

Tristeza de uns, alegria de outros. Guillaume Pringuay, francês contratado pela Technip, a serviço da Petrobras, para trabalhar no pré-sal, está feliz da vida. Ele compõe a equipe que de engenheiros estrangeiros que está ajudando o Brasil a desenvolver a tecnologia de exploração petrolífera em bacias de grande profundidade. Pringuay, argumenta:

“É interessante e preciosa a interação e troca de experiências com os brasileiros: sem dúvida alguma, os engenheiros locais ampliaram os conhecimentos numa área crítica para a indústria de petróleo e gás. Mas ainda são poucos, considerando a enorme demanda de profissionais na exploração em grande profundidade.”

O engenheiro francês considera que os desafios da prospecção de petróleo em profundidades acima de 2000 metros vai exigir que o Brasil continue trazendo profissionais estrangeiros nos próximos anos. “Já habilitamos a tecnologia para prospecção em até 2500 metros de profundidade no Brasil, mas precisamos de mais gente trabalhando nisso”, insiste.

Falta mão de obra qualificada?

Salários diretos entre R$ 2 mil e R$ 100 mil e benefícios sociais que vão dos seguros de saúde aos planos de carreira estimulantes, passando, no caso dos que trabalham na extração em alto mar, pelo superconforto nas instalações offshore e apoio às respectivas famílias. Vale tudo na constante luta da indústria de petróleo e gás para recrutar e, principalmente, fidelizar a mão de obra contratada.

Isso significa que faltam profissionais qualificados? As opiniões variam.

Ao contrário do que diz o setor acadêmico e a própria OIT (Organização Internacional do Trabalho), a Petrobras garante que não há escassez de mão de obra capaz de ameaçar o pré-sal e afirma que não sente qualquer tipo de carência no trabalho de exploração. “Esse é um fenômeno do qual se queixam alguns segmentos, por intermédio, na maioria das vezes, das entidades de classe que os representam”, minimiza Paulo Alonso, assessor da empresa para a área de Conteúdo Nacional e para o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp), destinado à formação de recursos humanos. O sentimento é compartilhado por Francis Bogossian, presidente do Clube de Engenharia, e Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet).

Há uma enorme quantidade de vagas abertas e de candidatos a elas. O último concurso promovido pela Petrobras, em 2011, teve quase 180 mil candidatos interessados em ocupar as vagas abertas nas áreas técnicas de segurança interna, administrador, advogado, analista ambiental, analista de comercialização e logística, analista de pesquisa operacional, analista de sistemas, bibliotecário, economista, engenheiro, geofísico, geólogo, médico do trabalho, profissional de comunicação social e psicólogo. Os salários variavam de R$ 1.994,30 a R$ 6.883,05.

Para se certificar de que a demanda por profissionais qualificados seja suprida, a Petrobras criou o Promimp, programa que objetiva capacitar técnicos e profissionais de nível superior e técnico destinados à indústria de óleo e gás. De 2006 até agora, o programa capacitou 88136 pessoas – um investimento estimado em R$ 236 milhões, com recursos da participação especial, que equivale a 0,5% sobre a receita bruta dos poços de petróleo, e cuja produção excede 20 mil barris diários.

Não há escassez, garante a Petrobras. Mas, pelo sim, pelo não, até 2015, para exorcizar de vez qualquer possibilidade em termos de carência de mão de obra, a empresa pretende qualificar mais 204 mil profissionais, esforço que deve custar outros R$ 434 milhões. Os cursos de capacitação para o pessoal de nível técnico são ministrados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e têm duração de quatro meses.

Do total de 204 mil profissionais a serem qualificados no âmbito do Prominp até 2015, 8,6 mil são de nível superior, incluindo engenheiros de diversas especialidades. No caso deles, os cursos se estendem por nove ou dez meses e se inserem na grade curricular das universidades federais e estaduais. Alonso calcula que 67% dos profissionais que saem dos cursos de qualificação são aproveitados na indústria de petróleo e gás. Os 33% restantes vão trabalhar em outras áreas.

Quem tiver interesse em conhecer o Prominp, pode acessar aqui o portal.

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