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Mão de obra de nível médio continua em falta

Faltam pedreiros, encanadores... Empresas lutam para ocupar vagas

por Marcus Lopes
fotos: divulgação

Quem necessita fazer uma obra em casa ou mesmo um pequeno reparo sabe o quanto está difícil encontrar um bom pedreiro, eletricista, encanador ou um mestre de obras. Nas empresas, o cenário não é diferente e há uma forte demanda por profissionais técnicos em todas as áreas, desde desenhistas para a construção civil até trabalhadores em logística e segurança do trabalho.

O crescimento da economia brasileira nos últimos anos criou um gargalo na oferta de mão de obra de nível médio, em especial no setor da construção civil. Pesquisa feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) no final do ano passado mostrava que 74% das empresas desse segmento estavam com dificuldades para ocupar as vagas de trabalho oferecidas. A maior carência estava no grupo de funcionários básicos, como pedreiros e serventes.

Outro levantamento, divulgado pela Fundação Dom Cabral em janeiro deste ano, aponta a dificuldade para a contratação de profissionais como trabalhadores manuais, gerentes de projetos e compradores. “A questão da mão de obra virou um grande gargalo no Brasil, sem previsão de melhora no curto e médio prazos”, diz o professor Paulo Rezende, responsável pela pesquisa.

Falta de capacitação de profissionais
Um dos entraves é a falta de capacitação dos profissionais do setor. “Nunca houve tanta falta de pessoas de nível intermediário para colocar a mão na massa”, diz Miguel Pierre, sócio-fundador da Escola Concretta, que forma profissionais qualificados para a construção civil. Criada em 2012, a escola possui atualmente cerca de 14 mil alunos, distribuídos em 47 franquias por todo o País. Segundo Pierre, grande parte dos formados nos cursos acaba trabalhando por conta própria, em obras e serviços particulares.

Miguel Pierre, sócio-fundador da Escola Concretta

“Um dos profissionais mais requisitados hoje em dia é o eletricista”, diz Pierre, lembrando que um bom mestre de obras chega a ganhar até R$ 15 mil por mês. “Muitas vezes ele sabe mais do que o engenheiro, pois é o profissional que lida diretamente no dia-a-dia da obra”, completa Pierre.

Para reverter o quadro de escassez nos próximos anos, é necessário estimular os jovens a considerarem os cursos técnicos na hora de escolherem sua carreira, pois o futuro pode ser até mais promissor do que o de um bacharel.

Técnico, profissional altamente requisitado
“É preciso reconhecer que o técnico é um profissional altamente requisitado na atualidade, divergindo de tempos nos quais a exigência de uma graduação era fundamental para ingresso no mercado de trabalho”, explica a professora Sonia Fernandes, diretora do Grupo de Supervisão Educacional da unidade de Ensino Médio e Técnico do Centro Paula Souza, vinculado ao governo do Estado de São Paulo.

“Emergimos dessa cultura: é preciso ter um diploma de curso superior para ser bem sucedido. Esse conceito, que talvez tenha atendido a demandas de determinada época, não se reflete mais nas necessidades e tendências do mercado de trabalho”, completa Sonia Fernandes. Entre 2003 e 2012, 381.526 técnicos se formaram pelo Centro Paula Souza. Grande parte, segundo pesquisas internas, ingressou rapidamente no mercado de trabalho, com rendimento médio inicial de dois salários mínimos.

Grupo de Supervisão Educacional da unidade de Ensino Médio e Técnico do Centro Paula Souza

Carência deve continuar nos próximos anos
Apesar do pessimismo com a economia nacional e a desaceleração do nível de emprego, a carência de profissionais de nível básico e médio deve continuar nos próximos anos. Dados do Sindicato da Construção de São Paulo (Sinduscon-SP) apontam que, nos primeiros quatro meses de 2014, o saldo entre demissões e contratações no setor foi positivo em 45,6 mil vagas. O PIB da construção em 2014 deve crescer entre 1% e 2%. Para evitar a escassez em um mercado que continua aquecido, o Sinduscon também aposta na formação de mão de obra no setor, inclusive com programas de educação continuada dentro dos canteiros de obras.

“O setor da construção sentiu esta questão (carência de mão de obra) de forma mais aguda entre 2010 e 2011, no auge do ‘boom’ da construção. Embora não tenhamos um levantamento específico sobre escassez de profissionais, sabemos que ela persiste. Porém, de forma menos aguda”, diz o presidente do Sinduscon-SP, Sergio Watanabe, que também aposta em um bom mercado de trabalho para os técnicos nos próximos anos.

O cenário otimista deve, inclusive, incentivar uma parte dos jovens a trocar o banco da faculdade por um bom curso técnico, para escapar de profissões saturadas.  “Isso já acontece há muito tempo em países desenvolvidos, como a Alemanha”, diz Watanabe.