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Papai Noel também trabalha duro!

Por Udo Simons

Antonio Oliveira NevesHá 22 anos, o representante comercial Antônio Oliveira Neves vive, literalmente, um momento mágico em sua vida com a proximidade do fim do ano. Quando novembro chega, ele se transforma numa das figuras mais conhecidas da mitologia cristã no Ocidente, o papai Noel. O bom velhinho, como conhecido por muitos, ganha tradução perfeita na figura de Antônio, um senhor de 72 anos, com largo sorriso, voz tranquila e olhar afetuoso. “O papai Noel mudou minha vida”, diz.

Aos 50 anos, quando fez o personagem pela primeira vez, por indicação de um dos seus filhos, que trabalha como ator, largou o cigarro e as bebidas. “Como lidar com as crianças com cheiro de cigarro ou de bebida. Isso não é correto. As crianças não merecem isso”. Abandonar esses dois hábitos, foram os primeiros passos das mudanças.

A atenção para com os outros passou a ser maior em sua vida. O afeto recebido pelas crianças também o fez ser mais positivo. E esse afeto passa de geração em geração e continua sendo praticado por muitos que, mesmo já tendo crescido, continuam a visitá-lo quando chega essa época do ano. É o caso de Cíntia Bernardes, 38 anos, mãe de Cauã. “Para mim ele é único. Ele é o nosso papai Noel”, fala sorridente.

Há quase 20 anos, Antônio é o papai Noel do Shopping Morumbi, zona Sul da capital paulista. A cada ano, vê milhares de pessoas passarem por lá. Nessas duas décadas já recebeu diversos pedidos, que, aliás, mudaram com o passar do tempo. “Antigamente, meninos pediam bola, bicicleta. As meninas boneca. Hoje, pedem smartphone, tablets, jogos eletrônicos”. Mas há outros pedidos.

“Algumas crianças desejam emprego para o pai ou para mãe, cesta básica”. Quando questionado sobre qual teria sido um dos pedidos mais inusitados, não duvida. Alguns anos atrás uma menina, menor de 10 anos, se aproximou e pediu um pai e uma mãe. A criança era de um orfanato e fora passear com a diretora da instituição. Antônio respondeu que ela rezasse, orasse que Deus ouviria seus desejos. Alguns dias depois desse encontro, ela voltou ao shopping.

“Estava na administração quando me procuraram dizendo que alguém gostaria de falar comigo. Desci para o local onde fico. Quando cheguei, lá estava a garota. Ela voltara para agradecer e me contar que havia sido adotada por um casal de italianos”.

É por ter vivenciado histórias como essa que Antônio não pensa em abandonar seu posto um minuto sequer. “Com certeza, vou até os 80 anos”. Se depender de sua saúde, ele pode ir até mais longe. Ele é um homem, ativo, que nem de perto dá sinais de cansaço pelas sete décadas já vividas. E isso não é só, os rendimentos como papai Noel são muito bons. “Salvam o meu ano”, comenta.

Capacitação 

Gesualdo Davola FilhoA função que paga muito bem. Em média, os ganhos de um papai Noel, contratado por um shopping center, variam de R$ 8 mil até R$ 17 mil, no período que vai de meados de novembro até o dia 24 de dezembro, em alguns casos sendo estendido à primeira semana de janeiro.

O cachê para eventos, festas e afins varia de R$ 150 a R$ 500 (que podem ser pagos pela diária ou por duas horas de trabalho, a depender do contrato). Isso sem contar com outras ações publicitárias, como fotos para campanhas em revistas, jornais e comerciais para a televisão.

“Definitivamente, ser papai Noel é uma boa forma de se aumentar os rendimentos no ano. É uma atividade que vale a pena investir”, pontua Gesualdo D’Avola Filho, que há três anos se tornou papai Noel comercial. Ou seja, deixou de ser papai Noel exclusivamente de sua família e passou a fazer o personagem profissionalmente. Em seu caso, foi além, forma outros profissionais.

Gesualdo é bacharel em administração. Tem uma Micro Empresa Individual e entre outros trabalhos, presta serviço como instrutor de capacitação profissional. No começo deste ano, em conversa com integrantes do Centro de Solidariedade ao Trabalhador (CST), organizou a primeira Oficina de formação de Noéis – que capacita pessoas para ser papai Noel e mulheres para serem mamãe Noel e Noeletes, as suas assistentes. Na prática, são elas as responsáveis pela organização das filas que ser formam para as visitas.

A primeira oficina teve 100 inscritos. Foi gratuita com 16 horas de carga horária, distribuídas em quatro dias de aula, com palestras para explicar as melhores práticas para atendimento ao público, noções de comportamento para cada personagem, forma de se vestir, detalhes sobre a legislação de contratação temporária (caso dos contratos da maioria das pessoas que vivem esses personagens) e dramatização das situações que viveriam.

“Já estamos nos preparando para 2014. A oficina deve acontecer entre junho e julho”, adianta Gesualdo. A época do ano é estratégica, pois as grandes redes varejistas e shoppings começam a procurar pessoas para essas funções a partir de setembro.

Mas é bom lembrar, nem todos têm perfil para essa atividade. É preciso, sobretudo, ter paciência para lidar com gente. Quem desempenha essas funções trabalha de quatro a oito horas por dia, os sete dias da semana, no período natalino. Sem contar com todos os eventos e festas possíveis de serem feitos, que aumentam os rendimentos, mas também geram mais cansaço.

Características físicas ajudam, no caso dos homens. Aqueles com cabelo e barba naturais (e brancos) têm vantagem. Uma barriguinha natural também é recomendada. “Quem usa barba e cabelos postiços não ganha tão bem”, enfatiza Gesualdo. A idade também conta ponto. Afinal, papai Noel não é um garotão. Aqueles com aparência europeia e olhos claros são favorecidos.

Como o mito de Santa Claus (um das formas de chamar papai Noel no Hemisfério Norte) se difundiu com mais força a partir da Europa, são os homens brancos, caucasianos, que povoam o imaginário mundial dessa figura. Porém, papais Noéis de outras etnias – como negros ou asiáticos – podem fazer sucesso no mercado. “Principalmente, se tiverem a barba e o cabelo brancos e naturais. Há interesse de mercado. Eles podem ganhar muito mais que um papai Noel convencional”, lembra Gesualdo, que, aos 55 anos, tem todas as características de um papai Noel europeu. Ele é branco com olhos verdes, barba e cabelo branco, muito branco. “Tenho cabelo branco desde os 18 anos. É genético. Mas invisto em xampus especiais para cabelos grisalhos.”

 

Confraternização

Outro que está há muitos anos como papai Noel, mais especificamente há 23 anos é Domingos Agatão, 61 anos. “Viver papai Noel é o momento em que recarrego minhas energias positivas. Principalmente, nas ações beneficentes que faço”. Agatão visita creches e asilo. Leva brinquedos e atenção às crianças e idosos.

Domingos AgatãoE assim como Antônio, viu sua vida mudar ao se transformar em papai Noel. “Fui muito boêmio. Era da noite. Após três anos de papai Noel, toda aquela vida ficou para trás”. Hoje, lembra que foi levado pela esposa, aos 38 anos, a se caracterizar. “Estava sem emprego. Foi uma necessidade”. A necessidade, com a experiência (e os ganhos em decorrência do trabalho) tornou-se prazer e o fez entender a vida de outra forma. “Aqui prático o bem. Isso me fortalece. Afasta a negatividade, o mal de minha vida”, pondera.

Para exemplificar essa prática do bem, ele lembra o pedido que recebera de uma senhora em 2011. Ela entregara uma carta na cidade cenográfica em que fica no shopping Center Norte, zona Norte da cidade de São Paulo. Ela pedia uma cadeira de rodas para a filha de 16 anos, que nascera com deficiência mental e física. A menina precisava da ajuda da mãe para o banho e ela já não conseguia mais dar banho na filha. “Ao ler a carta, decidi comprar a cadeira. Levei pessoalmente a casa dela. Fui tocado por aquele pedido. Fui movido a ajudá-la”.

O personagem de papai Noel para quem o vive é muito forte. A maioria dos que o fazem têm uma história de solidariedade para contar. Com o passar dos anos criam um afeto por essa figura, que é incorporada à vida deles. Daí, pensar em deixar essa função torna-se uma ideia remota, quase inexistente. Caso, também, do funcionário público estadual aposentado Paulo Pallazini, 66 anos, há 19 como papai Noel.

“É muito gratificante. Tenho muita emoção em dar vida a ele. Afinal, natal é confraternização”, diz.  Mas isso não é só. Paulo acredita, enfaticamente, que não adoece devido a esse trabalho. “Todo o carinho que entrego às crianças, fortalece minha condição física, minha saúde. Sequer tomo remédio”, comemora. E ele começou a ser papai Noel ao acaso, porque tinha barba farta e com cabelos brancos. Era convidado reiteradamente, até que decidiu aceitar o convite. “Aceitei por esportiva, aos 47 anos. A partir do primeiro ano, nunca pensei em largar.”

Como explicar, então, todo esse fascínio das pessoas pelo papai Noel e dos papais Noéis por essa atividade? Para Paulo é simples. “Há uma linha imaginária quando você está com a roupa do papai Noel, num ambiente natalino. Quando as pessoas se aproximam, cruzam essa linha, entram num mundo mágico, de alegria. Aquele sonho passa a ser verdade para ela e para quem vive esse personagem”.

A explicação torna-se verossímil quando se acompanha alguns minutos do Paulo Pallazinicotidiano desses profissionais e uma criança se aproxima. Aliás, não só crianças, quando adultos e idosos também chegam próximo. Imediatamente, vê-se um brilho diferente no olhar das pessoas. Surge um sorriso espontâneo e um jeito mais leve de caminhar. Quando as pessoas estão ao lado do papai Noel brota um sorriso, vê-se a excitação de alguns, a euforia de outros.

Parece inevitável, mesmo sabendo que aquele papai Noel não chegou até ali numa carruagem, puxada por renas, vindo do Polo Norte. Que a decoração onde ele se encontra, é apenas uma decoração, não a sua casa. Nesse momento, os detalhes lógicos, aparentemente, ficam sem tanta importância. A fantasia parece tomar conta na busca de um feliz natal. Ho! Ho! Ho!