Home > Acontece > Acontece no Mercado > Literatura de ficção e a sua carreira

Literatura de ficção e a sua carreira

Dizem por aí:

“O brasileiro não lê.”

Apesar de doer nos ouvidos, esta é uma verdade, sobretudo quando tratamos de literatura — ou seja, descontadas as leituras de jornais, revistas e afins. É o que nos mostram os resultados da terceira edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. De acordo com os 5.012 entrevistados de todas as regiões do País, o brasileiro lê, em média, 4,0 livros por ano — contando também os títulos não concluídos. Este número cai pela metade de considerarmos apenas os livros lidos do começo ao fim.

Os motivos do descaso para com os livros são muitos: desde o valor cobrado por um livro até a falta de tempo na correria do dia a dia. São justificativas que merecem ser ouvidas, mas certamente não podem impedir que alguém se debruce sobre uma obra. Se o livro está caro, é possível encontrá-lo pela metade do preço (ou menos) em sebos e formatos de bolso; se não há tempo, leia, por exemplo, enquanto o ônibus está parado no congestionamento. A verdade é: quem deseja ler arruma um jeito.

O que a leitura de ficção tem a ver com a sua carreira

Na última década, diversos cientistas cognitivos se debruçaram sobre a questão de como a ficção afeta nossas mentes. À frente desta pesquisa está o psicólogo cognitivo e escritor de ficção Dr. Keith Oatley. Dr. Oatley e outros pesquisadores pelo mundo descobriram que ficção não somente ativa, mas também aprimora as funções cognitivas que nos permitem conviver melhor em sociedade.

E o microcosmo do escritório nada mais é do que uma sociedade em miniatura.

Em seu livro Such Stuff as Dreams: The Psychology of Fiction,  ele afirma que a ficção se trata primariamente de “eus num mundo social”, e que o assunto principal da ficção é “o que as pessoas querem umas das outras”. Da mesma forma que o seu conhecimento em história ou finanças aumenta lendo vários livros desses assuntos, ler ficção aumenta sua compreensão de relações sociais – seu pensamento sobre o que outras pessoas estão pensando.

Na verdade, Dr. Oatley diz que a ficção é uma simulação do mundo social que nos permite experimentar (ao menos por meio da imaginação) uma variedade de circunstâncias sociais com diferentes tipos de pessoas que nós podemos encontrar no cotidiano. Transportando este conceito para o mundo corporativo, significa dizer que é possível encontrar um personagem fictício que tenha, digamos, as mesmas características que o seu colega de trabalho.

O papel dos escritores com a ficção sobre o trabalho

Em artigo no Boston Globe, o pensador Alain de Botton pede uma nova literatura que “proclame a inteligência, as peculiaridades, a beleza e o horror do local de trabalho”. Os ficcionistas têm um papel fundamental nesta empreitada.

“Contamos com escritores para ajudar a nos explicar o mundo. São eles que nos dão a sensação de como é se apaixonar, que nos dão palavras para descrever a paisagem ao nosso redor, e que nos ajudam a interpretar as dinâmicas de nossas famílias. (…) Escritores são nossos cartógrafos. Entretanto, muitos autores contemporâneos mantêm-se notoriamente em silêncio diante de uma área central de nossas vidas: o trabalho.”

O universo do trabalho é considerado, de forma geral, um detalhe na ficção. Tem o mesmo peso que a cor do cabelo do protagonista, por exemplo.

Nem sempre foi assim.

Nos anos 1930, a Grande Depressão transformou o trabalho em tema urgente para a literatura americana — afinal, o desemprego estava em todo lugar. O exemplo mais claro da apropriação do universo do trabalho pelos escritores é As Vinhas da Ira, de 1939. John Steinbeck narra os infortúnios de uma família massacrada pela crise e de uma sociedade miserável. Na obra, o autor mostra como o progresso tecnológico — maquinário moderno à época — tornou obsoleta a mão de obra dos meeiros (trabalhadores que atuavam nas terras de seus donos e obtinham metade dos frutos da lavoura), levando-os a mudar de região e de função.

Afinal, quais ficções o VAGAS Profissões pode sugerir?

Como estamos lidando sempre com candidatos, vagas, mundo corporativo e afins, é comum encontrarmos referências ao trabalho em muitas obras. Uma delas está citada acima: As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. E há, claro, tantos outros bons livros. Os dois que mais aprecio são:

As Intermitências da MorteAs Intermitências da Morte
As Intermitências da Morte, de José Saramago, não é exatamente o melhor livro do português Nobel de Literatura. Ainda assim, é superior à maioria dos livros que saem hoje em dia. A relação com o trabalho se dá pela organização em momentos de crise: quando a Morte — sim, com eme maiúsculo — deixa de atuar, os cidadãos deixam de morrer e o caos da eternidade se instaura na região. Neste momento, todo um país deve se reestruturar à nova realidade. Aí entra o conflito entre interesses pessoais e bem coletivo. É interessante para se fazer uma correlação com o seu ambiente de trabalho.

A Revolução dos BichosA Revolução dos Bichos
Um clássico de George Orwell. Tem um forte viés político: trata-se de uma sátira ao suposto paraíso comunista propagado pela Rússica na época de Josef Stalin. Na obra, animais se rebelam contra os humanos e se apropriam da fazenda. Instaura-se, então, um novo modelo de gestão do lugar, em que se busca o bem coletivo de porcos, ovelhas e outros bichos. Eles trabalham e vivem juntos, e tudo corre bem até que um dos bichos assume a dianteira da administração. Lembra aquele seu colega de trabalho que, quando estava em mesmo nível hierárquico, era gente fina e se tornou um idiota quando foi promovido? Pois é.