Home > Acontece > Acontece no Mercado > Licença-maternidade: ser mãe de prematuro

Licença-maternidade: ser mãe de prematuro

Mulheres contam como conseguiram conciliar o trabalho com os recém-nascidos

por Guss de Lucca 

Desde que foi instituída no Brasil, em 1943, a licença-maternidade evoluiu com o passar das décadas, tanto no aumento do tempo que a mãe tem com o recém-nascido até a obrigatoriedade da empresa em pagar o salário-maternidade. Porém, ainda há muito que conquistar para garantir às mulheres a segurança de poder cuidar dos filhos sem preocupar-se com o retorno ao trabalho.

Um dos casos mais delicados é o que envolve mães de crianças prematuras. Enquanto a maioria das mulheres consegue aproveitar ao menos os quatro meses de licença previstos por lei, mães de bebês que nascem antes do tempo muitas vezes voltam ao trabalho sem sequer poder amamentá-los.

A analista de sistemas Carla Sanches passou por uma situação desse tipo com o filho Fabrício, que nasceu prematuro de 25 semanas e passou 99 dias na UTI neonatal. “Quando o Fabrício recebeu alta eu tinha apenas mais um mês para ficar em casa com ele antes de voltar ao trabalho. O que me tranquilizou bastante foi o fato de ele ficar com a minha mãe”, conta Carla, que atualmente trabalha das 8h às 17h e volta correndo para dar comida ao pequeno Fabrício, com nove meses – e muito saudável.

Na época da licença ela fez pesquisas para saber se conseguiria prorrogar seu tempo, o que acabou não acontecendo – mesmo com um atestado médico. De acordo com Carla, a lei que que permite a contagem da licença-maternidade a partir do momento que o prematuro tem alta só vale para funcionárias públicas.

Com ajuda do marido
Contar com o auxílio da família é essencial para a mãe de um prematuro. No caso da auxiliar de escritório Thais Aro a ajuda veio do marido Rafael. Ao descobrir que estava grávida de trigêmeas logo depois de dar a luz ao filho Gabriel, ela teve que reorganizar a vida familiar para conciliar o trabalho com bebês.

Durante a gravidez a jovem de 27 anos não podia carregar peso e precisou da ajuda do parceiro para cuidar do filho recém-nascido. O que ninguém esperava é que as gêmeas Gabriela e Rafaela viessem prematuras – apenas nove meses após o nascimento do primôgenito. A terceira menina acabou nascendo morta.

licença-maternidade benefícios

Por causa disso, o casal decidiu que Rafael, que na época ganhava menos que Thais, deixaria o emprego assim que a licença-maternidade dela acabasse, passando a se dedicar exclusivamente aos filhos com a ajuda da sogra – uma situação que permaneceu até as meninas completarem 11 meses de vida.

“Foi bom pelas filhas, mas não é legal deixar o marido dentro de casa – ele ficou muito estressado, queria voltar a trabalhar o mais rápido possível. Mas só tenho a agradecer. Ele cuidou bem das crianças, levou aos médicos, deu de mamar a cada três horas – fez tudo certinho”, elogia Thais.

Mãe e empresária
E quando ao invés de funcionária a mãe do bebê prematuro é dona do próprio negócio? Foi o caso da empresária Bárbara Leal Bigaran. Proprietária de um salão de beleza e mãe de dois filhos maiores, ela foi surpreendida por uma gravidez aos 40 anos.

“Como cuido sozinha do negócio não contava com uma licença-maternidade superior a um mês, mas minha bebê nasceu com pouco menos de oito meses, o que me obrigou a priorizar a maternidade. Ela ficou 23 dias na UTI. No período que achei que estaria de volta ao salão ela não havia sequer chegado em casa”, conta.

Bárbara conta que ainda cuidava da empresa mesmo hospitalizada. “Não conseguia me desligar. Cheguei a receber papelada da gerente do banco no hospital”. Mesmo assim, após o nascimento da filha ela acabou se obrigando a desligar integralmente do negócio.

Se antes o trabalho era de terça a sábado, das 13h às 21h, agora os fins de semana são exclusivos de Alicia e o serviço diário caiu para menos de meio período. “Reduzi a carga horária das 13h às 17h, pois acho que as mães, principalmente de prematuros, precisam fazer o possível pela criança”, diz.

Superando as dificuldades
O caso da turismóloga Kátia Magalhães é curioso. Após enfrentar duas gestações difíceis e perder os bebês, o que a afastou do serviço por três meses, ela deixou claro aos chefes que tentaria novamente engravidar. Com isso, foi rebaixada do cargo e durante um ano não teve envolvimento em projetos significativos.

Por conta da gravidez de risco, Kátia foi afastada até dar a luz ao filho Miguel, que nasceu prematuro e ficou um mês na UTI. “O sindicato sugere seis meses de licença-maternidade, mas percebi que as empresas não seguem essa recomendação. Acabei voltando a trabalhar apenas três meses após a alta dele.”

Ao retornar seus chefes mantiveram a postura de afastá-la de qualquer serviço significativo, comprometendo sua carreira. “Eu só pensava nele e adoraria me ocupar, mas faltou estruturação para minha volta e novamente me senti diminuída, agora não pela perda, mas por ser mãe de um recém-nascido e não poder ter responsabilidades que ultrapassassem as oito horas de trabalho ou um dia de viagem”, diz.

“Acredito que para a mãe que retorna da licença-maternidade, o acolhimento, a definição de trabalho e o apoio à amamentação sejam um recomeço respeitoso e necessário. A OMS recomenda no mínimo 6 meses e no máximo 2 anos ao lado do bebê. Porém, pequenas atitudes como permitir que se faça home office já seriam bem vindas”, sugere Kátia. “Se a pessoa tem comprometimento ela não vai deixar de realizar seu trabalho porque teve um filho.”

* A VAGAS.com agradece aos responsáveis pela ONG Prematuridade pelo auxílio prestado durante esta reportagem.