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Inflação mais alta vai deteriorar os salários?

Replanejar o orçamento doméstico é uma saída. Cortar os supérfluos e fazer compras maiores para períodos mais longos são ações que ajudam a preservar o dinheiro.

por Heloisa Valente

A inflação começa a ganhar força no Brasil e junto com ela vem a preocupação com o desemprego e os rendimentos mensais. O Banco Central estima que a meta anual fique na casa dos 9,25% para 2015. Mas é fato que o consumidor já sente no bolso os aumentos de preços no comércio e serviços. E nesse cenário de incertezas, como ficam os salários?

Evaldo Alves, economista e professor da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que com a desaceleração econômica os salários tendem a ficar mais retraídos. “É claro que os dissídios coletivos são um respaldo para as categorias na correção dos salários. No entanto, para que os efeitos das perdas sejam minimizados é preciso uma mudança de comportamento nos gastos das famílias”, observa.

Ele comenta que replanejar o orçamento doméstico é uma saída. “Cortar os supérfluos e fazer compras maiores para períodos mais longos são ações que ajudam a preservar o dinheiro. Com isso, o consumidor acaba fugindo da escalada do preço no período e direciona seus gastos aos itens essenciais. A iniciativa está longe de estancar as perdas no longo prazo, mas ajuda o salário a ter maior poder de compra e a não sofrer a pressão inflacionária do mês”.

Alves lembra que não estamos em época de hiperinflação, como na década de 1980 e, portanto, em um momento onde não é preciso estocar comida em casa para preservar a renda diante dos consecutivos aumentos de preços. Ou, por exemplo, ter que investir no overnight (aplicação de muito curto prazo com resgate de um dia para o outro) para diminuir as perdas.

Momento de cautela

O economista diz que o período é de cautela para todos os segmentos econômicos e estima que os efeitos negativos da inflação sobre os salários e para a economia em geral devam permanecer até meados do próximo ano. Para ele, só a partir do segundo semestre de 2016 é que o Brasil deverá iniciar um ciclo de números mais favoráveis.

Alves explica que no mercado de trabalho dois comportamentos são essenciais nos dias de hoje: ser proativo para preservar o atual emprego e paciente para esperar o reajuste salarial. “Pedir aumento agora está totalmente fora de cogitação”, ressalta. Pela frente, diz ele, vem um ano sem grandes perspectivas de investimentos e de muito esforço para manter postos de trabalho.

Uma iniciativa que ele destaca importante na atual conjuntura e que vai nessa direção é o programa proposto pelo Governo que permite reduzir jornada de trabalho em detrimento do emprego.

Mas, nessa questão, o professor diz que os efeitos podem demorar a aparecer já que as empresas terão que aderir ao sistema e propor novos acordos coletivos e dissídios para os trabalhadores. “É uma tentativa válida, mas enquanto isso, a reorganização do orçamento pode ser um bom remédio para se defender da inflação”, conclui.