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FHC no CONARH 2013: “O gigante acordou, mas ainda tira umas sonecas”

Por Lívia Freitas

O ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, participou no dia 19 do 39º Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas – CONARH 2013, um dos maiores eventos de Recursos Humanos da América Latina que reúne grandes nomes para discutir sobre os principais assuntos e tendências da área. Em sua palestra, “Brasil: o gigante acordou?”, o sociólogo e professor universitário falou das últimas mobilizações sociais no país e o futuro das estruturas organizacionais.

O motivo inicial das manifestações foi o aumento da tarifa de ônibus (de R$ 3 para R$ 3,20), mas mesmo o governo recuando na decisão do reajuste, novas angústias com as condições políticas e sociais continuaram tomando as ruas de diversas cidades. Desde o impeachment de Fernando Collor, em 1992, não acontecia uma movimentação tão expressiva.

Fernando Henrique afirmou:

“Este é um momento muito especial: estamos vendo o renascimento da pessoa amorfa. Diferente do que vivíamos, essas manifestações partiram da população e não de partidos políticos ou associações.”

Para ele, esse foi o movimento dos inconformados e não necessariamente dos mais necessitados. Sendo um reflexo de um desconforto geral da sociedade com a vida cotidiana, vivemos em um país emergente, o transporte coletivo é precário e o crime afeta a todos, independente da classe social.

Essa grande transformação na sociedade tem como base a evolução tecnológica, pois permite uma conectividade entre pessoas que não se conhecem. Isso possibilita a troca de informação necessária para que elas se organizem por uma motivação coletiva. Para Fernando Henrique, as reivindicações das últimas manifestações refletem ainda a perda de prestígio do governo e a insatisfação com o sistema político. Ele afirma:

“É necessário criar novos mecanismos para conectar o povo com o Congresso.”

Há ainda um novo movimento na sociedade contemporânea para ele: a cobrança pela qualidade das relações humanas. Se olharmos os dados vemos que temos escolas e atendimento gratuito de saúde pelo SUS, mas a qualidade é questionável. Isso também acontece com a afirmação do cenário atual de pleno emprego, pois a expansão é apenas numérica — os trabalhos, de forma geral, oferecem em média dois salários mínimos como remuneração.

O sociólogo afirmou que o Brasil precisa refazer o rumo. Para isso, é necessário pulso firme. “Não é uma tarefa fácil, mas necessária”, aponta. Quando questionado se, enfim, o gigante havia acordado, FHC responde:

“Eu acho que o gigante já está andando, mas às vezes ele tira uma soneca.”

Como isso impacta você

As pessoas querem participar e ter voz. O grande desafio discutido na palestra de FHC é a necessidade da ruptura de como é feita a gestão de pessoas hoje. O modelo tradicional não atende mais as necessidades dos colaboradores e das novas gerações que buscam mais diálogo e inovação.

O ex-presidente ressaltou que o futuro são as organizações aderindo ao modelo de gestão horizontal, ainda pouco praticado no Brasil. Com isso, as decisões estão mais descentralizadas da imagem do chefe e as equipes ganham mais autonomia.

Os líderes também devem sofrer uma mudança de postura, sendo cada vez mais parecidos com a imagem do coaching, abertos para ouvir e para conversas. O futuro, com base no que disse Fernando Henrique, são empresas cada vez mais coletivas, em que todos participam mais ativamente e os colaboradores são cada vez mais exigentes.

Como isso impacta as empresas

Atualmente as pessoas cobram mais pela qualidade, e isso também vai acontecer com mais frequência e intensidade nas organizações. Os colaboradores vão querer mais e melhor. Esse sentimento de “quero mais” é o ponto de partida para o progresso e para as pessoas quererem participar do processo de tomada de decisão.

O grande desafio para as organizações é perceber o novo. O RH tem papel fundamental nessa reorganização. Os líderes, por sua vez, também precisam adotar uma nova postura em que a humildade em servir tenha papel central. E precisam aprender a ouvir. Fica o alerta aos chefes: normalmente quanto mais alto se está, menos se ouve.

Outro ponto que merece destaque é como administrar a expectativa das pessoas. Na palestra, Fernando Henrique disse que a faculdade mais importante é a imaginação: se você não deixar que as pessoas imaginem, não terá inovação — e sem inovação você não sairá do lugar.