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Como a maternidade me ensinou a ter tempo

Aprendi a organizar tarefas, cumprir prazos, não contar com a sorte e me perdoar quando alguma coisa escapa da memória

Quando não era mãe, eu não sabia ter tempo. Era ocupada, estressada, agitada. Vivia estourando prazo, pedindo mais um dia, contava com a sorte. Até que a Pietra nasceu e mudou tudo. A antiga forma de trabalho que eu tinha – em redação, com fechamentos e horários imprevisíveis (que eu amava, como amava!) – não cabia na minha nova vida.

Quando ela tinha um ano e meio, decidi ser freelancer. Isso foi há cinco anos e eu mantenho a decisão, ainda que a rotina pareça insana.

De manhã, enquanto ela está na escola, trabalho loucamente. Tento não disparar e-mails às 6h49, mas às vezes eles fogem do controle. Na hora do almoço, atravesso Consolação e a Paulista para pegá-la na escola. De terça a sexta encaramos a 23 de Maio rumo à Zona Norte. O segundo turno é intenso: Ginástica Rítmica, Natação, Ballet – cada atividade com seu dia, seu horário, sua frequência, sua roupa, seu coque, seu uniforme. “Mãe, tenho certeza que um dia você vai me mandar pra GR com coque e roupa de ballet”, ela aposta, mas ainda não aconteceu (ufa!).

Quando voltamos para casa, começa o terceiro turno – mais entrevistas, mais textos, mais contatos, muitos e-mails mais. É tudo corrido, atrapalhado. Um dia fiquei chateada porque não enviei a mochila de natação para escola no dia de natação. Na saída, Pietra perguntou por que não mandei a lancheira. Esqueci. Os dois. No mesmo dia. Também já esqueci a reunião do início do ano. Perdi o dia do livro. Perdi até o livro – mas depois achei. No trabalho também, vez ou outra, algum e-mail fica esquecido na caixa de entrada. Alguma entrevista precisa ser feita do trânsito (santa tecnologia!).

Aprendi a ter tempo para o que é importante

Até hoje, quando digo que sou freelancer, algumas pessoas me olham com pena. Entendo. Eu não trabalho mais na grande mídia. Não tenho cartão de visita nem crachá. Não ganho prêmios, raramente tenho almoços ou café com colegas. Perdi aquele glamour de não ter tempo. Eu tenho tempo. Tempo para ver minha filha crescer, cozinhar almoço e jantar, preparar o lanche, acompanhar a lição de casa, ler com ela antes de dormir – e sozinha, depois que ela dorme.

E também tenho tempo para trabalhar com concentração máxima entre uma coisa e outra. Por isso digo que aprender a ter tempo foi a maior lição que a maternidade emprestou para minha vida profissional. Nunca mais contei com a sorte. Aprendi a me organizar e cumprir prazos porque sei – e como sei! – que tudo pode fugir do controle a qualquer momento.

Eu tenho, sim, um pouco de inveja das amigas que não abriram mão do emprego e continuam crescendo em cargos e salários. Elas são incríveis. Tenho também um pouco de inveja daquelas que não trabalham e podem se dedicar totalmente aos filhos. É um outro tipo de trabalho, quase invisível. Mas hoje entendo que é trabalho também. E elas também são incríveis.

Tenho um pouco de cada situação, mas nenhuma plenamente. E sabe? Também me sinto incrível porque estou satisfeita com a decisão que tomei. Se isso mudar, tento mudar tudo de novo.  Por enquanto, vou aproveitando o tempo que aprendi a ter. Feliz dia das mães para nós. Que tenhamos tempo para viver o que é importante. No resto a gente dá um jeito! 😉

Fernanda Bottoni é editora do VAGAS Profissões e colabora com o site desde que ele nasceu